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Abhinavagupta tirou o dono da dor no palco

Em Caxemira, por volta do ano 1000, um comentário ao tratado de Bharata explicou por que a tragédia dá prazer a quem assiste.

Espectadora chora diante de um palco iluminado.

Abhinavagupta e o sabor, Caxemira, ano 1000

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Sabor: “impressão produzida na língua por certas substâncias” (Dicionário Houaiss). O verbete fica na boca e não alcança a plateia de um teatro.

Na Índia antiga, a palavra para sabor servia também ao palco. Em sânscrito, rasa quer dizer suco, seiva, o gosto de uma fruta. Um tratado de teatro atribuído ao sábio Bharata, o Natyashastra (Tratado da arte dramática), usou a palavra para nomear o efeito de uma peça em quem assiste.

O tratado é enorme. Ensina a construir o palco, a mover os olhos e as mãos, a afinar os tambores, a vestir o ator. Ninguém sabe ao certo quando foi composto: os estudiosos datam o texto entre o século II antes de Cristo e o século II depois.

No sexto capítulo aparece uma fórmula curta. O sabor nasce da junção de três elementos: as causas da emoção, os sinais que o ator mostra no corpo e as emoções passageiras que vêm e vão. Bharata lista oito sabores, entre eles o amoroso, o cômico, o heroico, o terrível e o patético.

A fórmula diz como o sabor se monta. Não diz onde ele fica, nem por que a dor de uma heroína abandonada agrada a quem paga para vê-la.

Durante séculos, comentadores brigaram por essa lacuna. Um dizia que o sabor morava no personagem. Outro, no ator que o imitava. Um terceiro tentou a plateia, mas não explicou o caminho.

Por volta do ano 1000, em Caxemira, no extremo norte da Índia, um mestre de filosofia e de ritual escreveu o comentário que encerrou a briga por quase mil anos. Chamou o livro de Abhinavabharati (O novo Bharata). O autor assinava Abhinavagupta, nome de um dos maiores pensadores da Índia medieval.

A resposta dele começa por uma pergunta simples: de quem é a tristeza que o espectador sente diante do palco.

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I  A ideia do dia

A dor sem endereço

Abhinavagupta parte de uma observação de plateia. Na vida comum, toda emoção tem dono e tem endereço. Quando alguém sente medo de um tigre, o medo é dele, o tigre está ali e o corpo pede fuga. A emoção empurra para uma ação.

No teatro, a mesma emoção chega sem esse empurrão. O espectador vê o medo em cena, sente o medo inteiro e continua sentado. Ninguém corre para o fundo da sala. Ninguém chama a polícia quando o vilão saca a espada.

A explicação dele usa uma palavra emprestada de um comentador anterior, Bhatta Nayaka: sadharanikarana (generalização, tornar a emoção comum a todos). No palco, a emoção se solta das pessoas concretas. A tristeza deixa de ser da rainha, deixa de ser da atriz e deixa de ser do espectador. Fica uma tristeza sem nome próprio.

O exemplo preferido de Abhinavagupta vem de Shakuntala, a peça de Kalidasa, poeta do século V. No primeiro ato, o rei Dushyanta persegue de carro um cervo pela floresta. O poeta descreve o animal em fuga:

“Virando o pescoço com graça, ele olha a cada instante para o carro que o persegue.”

Kalidasa, Shakuntala, século V

Abhinavagupta comenta o verso. Quem lê não sente medo por si, porque não há carro atrás dele. Também não sente medo só pelo cervo, porque o cervo é um bicho de poema. O que sobra é o medo puro, sem lugar e sem tempo, que qualquer um reconhece de dentro.

O medo do cervo vira o medo de ninguém, e por esse motivo pode ser saboreado.

Para nomear o gesto de quem assiste, ele usa a palavra carvana (mastigação lenta, ruminar). O espectador não recebe a emoção pronta: ele a mastiga, a prova e a reconhece, do jeito como se segura um gole de vinho na boca antes de engolir.

Nem todo mundo consegue. Abhinavagupta reserva o sabor ao sahrdaya (o de coração junto, o espectador sensível), alguém cuja mente foi polida por muita leitura e muito teatro, como um espelho limpo. Ele lista sete obstáculos que impedem o sabor: entre eles, achar a cena implausível, ficar preso aos próprios problemas e se perguntar se a história acontece de fato.

A dor generalizada não pede socorro porque não tem a quem pedir. Ela vira objeto de contemplação. Daí vem o paradoxo resolvido: a tragédia dá prazer porque a tristeza dela não pertence a ninguém em particular.

Num cinema de shopping, numa sessão de domingo, uma mulher chora no escuro durante o filme. Quando as luzes acendem, ela guarda o lenço e vai comprar pipoca para a sessão seguinte.

 
 

II  Quem pensou

O mestre de Caxemira

Abhinavagupta nasceu por volta de 950 em Caxemira, numa família de brâmanes letrados. Ele mesmo conta a origem no fim de uma obra: um antepassado chamado Atrigupta tinha sido levado de Kannauj, no norte da Índia, pelo rei Lalitaditya, no século VIII, e ganhou terra perto do rio Vitasta.

O pai, Narasimhagupta, ensinou a ele gramática e lógica. A mãe, Vimala, se foi quando o menino era pequeno. Abhinavagupta escreve que a perda o afastou da vida comum e o empurrou para o estudo.

Estudou com perto de vinte mestres, de escolas diferentes. Com Bhatta Tota aprendeu teatro e poética. Com Lakshmanagupta, a filosofia do reconhecimento, uma corrente do xivaísmo de Caxemira (o culto ao deus Shiva como consciência única). Não se casou, por escolha.

Ele escreveu sobre ritual, sobre Deus e sobre teatro, e para ele eram o mesmo assunto.

A obra religiosa mais longa dele é o Tantraloka (Luz sobre os tantras), um tratado em 37 capítulos sobre ritual e consciência. A obra de poética mais lida é o comentário ao teatro de Bharata. Entre as duas fica um terceiro livro: o comentário ao Dhvanyaloka (Luz sobre a sugestão), do poeta Anandavardhana, escrito no século IX.

Anandavardhana tinha defendido que a poesia vale pelo que sugere, não pelo que diz. A palavra para o efeito é dhvani (sugestão, ressonância, o som que continua depois da batida do sino). Abhinavagupta junta a sugestão ao sabor: o sabor nunca é dito no texto, só sugerido, e acende na mente de quem assiste.

O vínculo com a religião aparece no próprio comentário de teatro. O prazer estético, escreve ele, é parente do repouso da consciência em si mesma, a experiência que o xivaísmo de Caxemira busca no ritual. O espectador provaria por algumas horas, sem esforço, um gosto da liberdade que o iogue busca a vida inteira.

“O sabor é uma percepção feita de saborear.”

Abhinavagupta, Abhinavabharati, por volta do ano 1000

Ninguém sabe quando nem onde ele terminou a vida. Uma tradição de Caxemira, registrada séculos depois, conta que entrou na caverna de Bhairava, perto de Mangam, com 1.200 discípulos, e não voltou. Nenhum documento da época confirma o relato. As últimas obras datadas dele são de 1014 e 1015.

O discípulo Kshemaraja continuou a escola e escreveu comentários aos textos do mestre. O Abhinavabharati sobreviveu em poucos manuscritos, muitos com falhas, e só ganhou edição impressa no século XX, em Baroda.

 

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III  Contra o quê

O sabor dentro do personagem

O primeiro alvo de Abhinavagupta é Bhatta Lollata, comentador anterior. Para Lollata, o sabor era a emoção do personagem histórico, intensificada pela arte: o amor de Rama por Sita, levado ao máximo. O ator apenas o mostrava.

A objeção vem rápida. Se o sabor estivesse no personagem, o espectador não o sentiria, como ninguém sente a fome do vizinho. E se sentisse a emoção do personagem como sua, a dor de Sita seria só dor, sem prazer nenhum.

O segundo alvo é Shankuka. Ele dizia que o espectador deduz a emoção a partir do ator, como quem reconhece um cavalo num quadro pintado. Abhinavagupta recusa: dedução é raciocínio frio, e ninguém chora por conclusão lógica.

O terceiro é o próprio Bhatta Nayaka, de quem ele herdou a palavra generalização. Nayaka inventou dois poderes especiais da poesia para explicar o caminho até o sabor. Abhinavagupta guarda a ideia e corta os dois poderes: a sugestão de Anandavardhana basta.

Dar o crédito e cortar o excesso era o método dele.

Num ponto ele foi além do próprio Bharata. O tratado listava oito sabores. Abhinavagupta defende um nono, shanta (o sabor da paz), nascido do desapego, e o põe acima dos outros: todos os sabores, diz ele, repousam nele como ondas no mar.

A teoria sobreviveu à briga. Mammata, também de Caxemira, a resumiu no Kavyaprakasha (Luz da poesia), por volta de 1100, e por esse manual ela chegou às escolas da Índia. No século XX, o estudioso italiano Raniero Gnoli traduziu a parte central do comentário para o inglês em 1956, em Roma, e a ideia entrou nas aulas de estética do Ocidente.

Vale notar o alcance da escolha. Ao pôr o sabor na mente de quem assiste, e não no texto nem no ator, Abhinavagupta tirou da obra a posse do efeito. A peça só oferece as condições; o sabor acontece em cada espectador preparado, toda vez, de novo.

A generalização tem limite reconhecido pelo próprio autor. Se o espectador acabou de perder um filho, a cena da mãe enlutada não se generaliza: volta a ter dono. O obstáculo dos problemas pessoais derruba o sabor.

Num velório, um ator conhecido assiste ao enterro do pai. Ele já fez a mesma cena no palco centenas de vezes.

Desta vez ele não consegue olhar.

 
 
 

Quiz da edição

Segundo uma tradição de Caxemira registrada séculos depois, quantos discípulos teriam acompanhado Abhinavagupta quando ele entrou na caverna de Bhairava, de onde nunca voltou?

A100 discípulos
B1.200 discípulos
C700 discípulos
D200 discípulos

Resultado da última edição: 100% acertaram.

Veja o ranking de quem mais acerta →

 

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