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Abhinavagupta nasceu por volta de 950 em Caxemira, numa família de brâmanes letrados. Ele mesmo conta a origem no fim de uma obra: um antepassado chamado Atrigupta tinha sido levado de Kannauj, no norte da Índia, pelo rei Lalitaditya, no século VIII, e ganhou terra perto do rio Vitasta.
O pai, Narasimhagupta, ensinou a ele gramática e lógica. A mãe, Vimala, se foi quando o menino era pequeno. Abhinavagupta escreve que a perda o afastou da vida comum e o empurrou para o estudo.
Estudou com perto de vinte mestres, de escolas diferentes. Com Bhatta Tota aprendeu teatro e poética. Com Lakshmanagupta, a filosofia do reconhecimento, uma corrente do xivaísmo de Caxemira (o culto ao deus Shiva como consciência única). Não se casou, por escolha.
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Ele escreveu sobre ritual, sobre Deus e sobre teatro, e para ele eram o mesmo assunto.
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A obra religiosa mais longa dele é o Tantraloka (Luz sobre os tantras), um tratado em 37 capítulos sobre ritual e consciência. A obra de poética mais lida é o comentário ao teatro de Bharata. Entre as duas fica um terceiro livro: o comentário ao Dhvanyaloka (Luz sobre a sugestão), do poeta Anandavardhana, escrito no século IX.
Anandavardhana tinha defendido que a poesia vale pelo que sugere, não pelo que diz. A palavra para o efeito é dhvani (sugestão, ressonância, o som que continua depois da batida do sino). Abhinavagupta junta a sugestão ao sabor: o sabor nunca é dito no texto, só sugerido, e acende na mente de quem assiste.
O vínculo com a religião aparece no próprio comentário de teatro. O prazer estético, escreve ele, é parente do repouso da consciência em si mesma, a experiência que o xivaísmo de Caxemira busca no ritual. O espectador provaria por algumas horas, sem esforço, um gosto da liberdade que o iogue busca a vida inteira.
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“O sabor é uma percepção feita de saborear.”
Abhinavagupta, Abhinavabharati, por volta do ano 1000
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Ninguém sabe quando nem onde ele terminou a vida. Uma tradição de Caxemira, registrada séculos depois, conta que entrou na caverna de Bhairava, perto de Mangam, com 1.200 discípulos, e não voltou. Nenhum documento da época confirma o relato. As últimas obras datadas dele são de 1014 e 1015.
O discípulo Kshemaraja continuou a escola e escreveu comentários aos textos do mestre. O Abhinavabharati sobreviveu em poucos manuscritos, muitos com falhas, e só ganhou edição impressa no século XX, em Baroda.
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