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A vertigem que vem de poder escolher

Em 1844, Kierkegaard separou o medo, que tem objeto, da angústia, que não tem nenhum, e a chamou de vertigem da liberdade.

Homem de casaca do século XIX na beira de um penhasco, olhando o vazio.

O abismo não empurra ninguém

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Angústia: "estreiteza, aperto; ansiedade, aflição" (Dicionário Houaiss). A palavra vem do latim angustia, lugar estreito, e a definição promete um espaço que se fecha em volta de alguém. Em 1844, um dinamarquês de 31 anos descreveu o contrário: a angústia aparece quando o espaço se abre demais.

Pense em alguém na varanda do vigésimo andar, encostado no parapeito. Ninguém o ameaça. A grade é firme, o piso é firme, a tarde está calma. Mesmo assim as pernas amolecem e o estômago sobe.

O medo não explica a cena. Medo pede um alvo: o cachorro bravo, a prova de amanhã, a conta atrasada. Na varanda não existe alvo. Existe um pensamento rápido, quase sem palavras: eu poderia pular.

Ninguém ali quer pular. A tontura vem justamente de saber que pode. O corpo obedece, a grade tem altura de cintura, e a decisão depende só de quem está olhando para baixo. Basta um gesto, e nada no mundo o impediria de fazê-lo.

O livro que descreveu essa tontura saiu em Copenhague em 17 de junho de 1844, com assinatura falsa. Na capa, o autor se chamava Vigilius Haufniensis, expressão latina que quer dizer vigia de Copenhague. O título dinamarquês era Begrebet Angest, O Conceito de Angústia.

Quem escreveu foi Søren Kierkegaard, filho caçula de um comerciante rico de tecidos de lã. Ele usava pseudônimos para que cada livro falasse com voz própria, e muitas vezes um pseudônimo discordava do outro.

O livro é difícil, cheio de teologia sobre Adão e o pecado original. No meio dele, porém, há uma separação que atravessou dois séculos de filosofia e de psicologia: de um lado o medo, que sempre aponta para algo; do outro a angústia, que aponta para nada.

E Kierkegaard deu a esse nada uma imagem que qualquer pessoa reconhece da varanda.

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I  A ideia do dia

Tontura na beira do abismo

A imagem está no segundo capítulo de O Conceito de Angústia. Kierkegaard compara a angústia à vertigem e pergunta onde mora a causa da tontura: no abismo ou em quem olha.

"A angústia pode ser comparada à vertigem. Aquele cujo olhar mergulha num abismo escancarado sente vertigem. Mas qual é a causa? Está tanto no seu olho quanto no abismo, pois ele poderia não ter olhado. Assim, a angústia é a vertigem da liberdade."

Søren Kierkegaard, O Conceito de Angústia, 1844

A resposta dele é que a causa está nos dois. O abismo sozinho não dá tontura a ninguém que não esteja na beira. O olho sozinho também não. A vertigem nasce do encontro entre um vazio real e alguém livre para se jogar nele.

Daí a separação do livro. O medo, que em dinamarquês se diz frygt, se refere a algo determinado: um cão, uma doença, um credor. A angústia, angest no original, se refere a nada determinado. O objeto dela é a própria possibilidade, ainda sem forma.

Como a angústia nasce, segundo o livro de 1844

1. Inocência: Adão ainda não conhece a diferença entre bem e mal.

2. Proibição: a ordem de não comer da árvore desperta nele uma ideia nova, a de que é capaz de algo.

3. Possibilidade: sem saber o quê, ele sabe que pode. Ali começa a angústia.

4. Salto: a escolha acontece, e nenhuma explicação anterior a produz por inteiro.

O terceiro passo é o centro do argumento. Kierkegaard chama esse estado de possibilidade de poder. Adão não sabe o que é o mal, nem o que é a morte que a proibição anuncia. Sabe apenas que existe uma porta, e que a mão é dele.

A angústia não avisa um perigo; avisa que a escolha é sua.

O livro descreve a angústia como ambígua. Kierkegaard usa duas expressões invertidas: antipatia simpática e simpatia antipática. A pessoa angustiada é atraída e repelida pela mesma possibilidade, ao mesmo tempo.

Ele nota o mesmo traço nas crianças. Elas procuram o aventureiro, o monstruoso, o enigmático, e sentem prazer num susto que elas mesmas buscaram. A angústia da criança ainda não tem culpa; tem curiosidade.

O capítulo final do livro dá à angústia um papel que surpreende quem esperava um remédio contra ela. Kierkegaard escreve que quem aprendeu a se angustiar do jeito certo aprendeu o mais alto. A angústia, para ele, é escola: quem foge dela sempre, foge também da própria liberdade.

 
 

II  Quem pensou

O filho do pastor da Jutlândia

Søren Aabye Kierkegaard nasceu em Copenhague em 5 de maio de 1813, o último dos sete filhos de Michael Pedersen Kierkegaard e Ane Sørensdatter Lund. O pai tinha 56 anos quando ele nasceu.

Michael Pedersen vinha da Jutlândia, a península pobre do oeste dinamarquês. Menino, cuidava de ovelhas na charneca (campo aberto de vegetação rasteira) e, segundo o que o próprio filho registrou no diário, um dia amaldiçoou Deus por causa da fome e do frio. Depois foi para a capital, prosperou no comércio e carregou essa culpa até o fim.

A família encolheu cedo. Até 1834, a mãe e cinco dos sete filhos tinham falecido. Sobraram o pai, Søren e o irmão Peter Christian, que viria a ser bispo. O pai faleceu em 9 de agosto de 1838 e deixou ao caçula uma herança que pagou quase todos os livros que ele publicou.

Em 1835, aos 22 anos, de férias no vilarejo de pescadores de Gilleleje, Kierkegaard escreveu no diário a frase que resume o projeto da vida dele: trocar o saber acumulado pela pergunta sobre o que fazer.

"O que realmente me falta é ver com clareza o que devo fazer, e não o que devo saber."

Søren Kierkegaard, diário, Gilleleje, 1º de agosto de 1835

Em setembro de 1840 ele ficou noivo de Regine Olsen, de 18 anos. Em outubro de 1841 devolveu o anel. Nunca explicou o motivo por inteiro: o diário fala de melancolia e de um segredo que ele não podia dividir, sem dizer qual. O que pesou de fato na decisão continua desconhecido.

O livro sobre a vertigem da escolha saiu menos de três anos depois da escolha mais cara da vida do autor.

Depois do rompimento veio uma produção espantosa. Em 1843 saíram Ou Isto ou Aquilo e Temor e Tremor. Em junho de 1844, em menos de uma semana, saíram Migalhas Filosóficas, O Conceito de Angústia e Prefácios, cada um com um pseudônimo diferente.

Regine casou em 1847 com Johan Frederik Schlegel, futuro governador das Índias Ocidentais Dinamarquesas. Kierkegaard nunca casou. No testamento, deixou a ela o que tinha; Regine recusou a herança e aceitou apenas as cartas e alguns objetos pessoais.

Em outubro de 1855 ele desmaiou na rua e foi levado ao Frederiks Hospital, em Copenhague. Faleceu ali em 11 de novembro, aos 42 anos. A herança do pai estava praticamente gasta. Os diários, com milhares de páginas, foram publicados depois, e é deles que vem quase tudo o que se sabe da vida privada dele.

 

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III  Contra o quê

Contra o sistema de Hegel

O adversário tem nome: Georg Wilhelm Friedrich Hegel, filósofo alemão que faleceu em 1831 e deixou um sistema que pretendia explicar tudo, da lógica à história, por um único movimento de ideias.

O motor desse sistema é a mediação (Vermittlung, em alemão): cada ideia encontra a oposta e as duas se resolvem numa terceira, mais ampla. Nada fica de fora. Em Copenhague, o teólogo Hans Lassen Martensen dava aulas lotadas sobre Hegel desde 1837, e o sistema virou moda entre os estudantes.

Kierkegaard atacou o sistema logo na introdução de O Conceito de Angústia. A lógica, diz ele, não tem movimento real. Quem fala em movimento dentro da lógica está trazendo para ela algo da vida, e a vida não cabe ali.

O exemplo é a própria angústia. Ela antecede o salto, que é a escolha concreta de alguém. Nenhuma dedução leva da possibilidade à escolha. Entre as duas existe um salto qualitativo (uma mudança de natureza, sem degrau intermediário), e o sistema, por construção, não aceita saltos.

"Um sistema lógico é possível; um sistema da existência é impossível."

Søren Kierkegaard, Pós-escrito Conclusivo Não Científico, 1846

Hegel explicava a história inteira; Kierkegaard queria saber o que uma pessoa faz na beira do abismo.

A crítica tinha alvo pessoal também. Kierkegaard acusava os pensadores do sistema de construir palácios de ideias e morar num barraco ao lado. A filosofia deles descrevia a humanidade e esquecia o indivíduo, que precisa decidir sozinho, sem garantia.

O ataque teve vida longa. Em 1927, Martin Heidegger retomou em Ser e Tempo a mesma separação entre medo e angústia, e reconheceu numa nota de rodapé que Kierkegaard tinha ido mais longe que todos na análise da angústia.

Uma analista de sistemas recebe por email uma proposta de emprego em outra cidade. Salário maior, equipe nova, prazo de resposta até sexta. Nada nela é ameaça. Mesmo assim ela passa três noites acordada, sem conseguir dizer do que tem medo.

Não tem medo de nada em particular. Tem diante de si duas vidas possíveis, e só ela pode escolher uma. A tontura é a mesma da varanda.

"Qual foi a última escolha que você adiou só porque ela dependia de você?"

Ela assinou na sexta.

 
 
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AProibição, inocência, possibilidade, salto
BInocência, salto, possibilidade, proibição
CInocência, proibição, possibilidade, salto
DPossibilidade, inocência, proibição, salto

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