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A uva fica verde depois que você desiste
Jon Elster chamou de preferência adaptativa o ajuste silencioso do que você quer ao que virou impossível, feito antes de você notar.
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A uva alta que ninguém alcançou
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Uma analista de trinta e quatro anos manda o currículo para uma vaga em outra cidade. Ela conta para duas amigas, calcula o aluguel do bairro novo, procura no mapa quanto tempo levaria da estação até o escritório, e passa cinco semanas esperando o retorno do processo seletivo.
O retorno chega num email de quatro linhas, sem explicação, agradecendo o interesse e informando que a posição foi preenchida por outro candidato. Ela responde agradecendo, fecha o notebook e vai fazer o jantar.
Duas semanas depois, num almoço de domingo, alguém da família pergunta se ela ainda pensa em se mudar. Ela responde que não, que o aluguel lá é uma loucura, que o inverno é insuportável, que a cidade é bonita de visitar e péssima de morar, e que a vida dela aqui está resolvida. A resposta sai inteira, sem hesitação, e ela acredita em cada palavra.
Nada de novo entrou na conta entre o email e o almoço. Ela não visitou a cidade, não fez planilha de custo de vida, não conversou com ninguém que morasse lá. A única informação nova foi a recusa, e a recusa não contém argumento nenhum contra a cidade.
A ideia do dia é que o desejo se ajusta ao que sobrou de possível, e o ajuste acontece por baixo, sem deliberação, sem que o dono do desejo assista à operação. O que ele encontra depois é a preferência já reformada, com aparência de opinião própria e de conclusão razoável.
Um filósofo norueguês deu nome ao processo em 1983 e usou como título do livro uma expressão que vem de uma fábula antiga. O ponto que interessa não é a fábula, e sim a consequência: se a preferência se molda ao possível, medir bem-estar pela preferência satisfeita passa a ser uma operação estranha, porque quem tem menos opções tende a querer menos.
O mecanismo tem regra, tem parente próximo do qual precisa ser separado, e tem um efeito que atinge a economia, a política e a conversa de domingo. Vale ver como ele funciona por dentro.
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I A ideia do dia
O desejo se conforma antes de você decidir
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A raposa da fábula tenta alcançar o cacho pendurado alto, pula algumas vezes, não chega, vai embora dizendo que as uvas estavam verdes. A versão em verso de La Fontaine, de 1668, termina com a raposa observando que aquilo era comida de gente rústica, e a moral costuma ser lida como uma lição sobre hipocrisia.
A leitura da hipocrisia supõe que a raposa continua querendo a uva e mente para a plateia. Jon Elster propõe a leitura inversa, e é ela que sustenta o conceito: a raposa parou de querer de verdade. A frase não é disfarce, é relatório honesto de um desejo que já mudou.
Preferência adaptativa é o nome dado ao processo pelo qual o conjunto do que alguém deseja encolhe até caber no conjunto do que está ao alcance. A tensão entre querer e não poder é desagradável, e o organismo resolve a tensão pelo lado mais barato, que é o lado do querer.
Duas marcas separam o processo de qualquer decisão sensata. A primeira é que ele é causal, não intencional: ninguém escolhe passar a achar a uva verde, o efeito aparece pronto. A segunda é que ele opera às escuras, e o resultado se apresenta ao próprio sujeito com cara de avaliação nova sobre o objeto.
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A raposa não mente sobre a uva, ela deixou de querer a uva, e o que parece juízo sobre a fruta é apenas o formato que a impossibilidade tomou por dentro.
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Elster faz questão de distinguir o processo de um vizinho respeitável, que ele chama de planejamento de caráter. Quem decide, de olhos abertos, cultivar gostos mais baratos ou parar de perseguir aquilo que faz mal está trabalhando as próprias preferências de propósito, com razões que consegue enunciar e defender. A operação é a mesma na aparência e oposta na natureza.
A separação se apoia em três perguntas curtas:
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Origem: o ajuste veio de informação nova sobre o objeto, ou apenas da notícia de que o objeto ficou fora de alcance
Consciência: a pessoa consegue reconstruir as razões da mudança, ou encontra a preferência já trocada
Reversibilidade: se a opção voltasse a existir amanhã, o desejo antigo voltaria junto
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Onde as três respostas apontam para o lado do fato consumado, o ajuste é adaptativo. Onde a pessoa articula o motivo e sustenta o motivo mesmo com a porta reaberta, existe planejamento de caráter, e ele merece o respeito que se dá a uma escolha.
A consequência atinge o instrumento mais usado para medir bem-estar em economia e em política pública. Se a régua é a satisfação das preferências declaradas, quem passou a vida com poucas opções aparece na medição como alguém satisfeito, porque aprendeu a querer o pouco que havia. A régua premia justamente a privação que durou tempo suficiente para virar gosto.
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II Quem pensou
O norueguês que desmontou a escolha por dentro
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Jon Elster nasceu em Oslo, em 22 de fevereiro de 1940, filho do jornalista Torolf Elster, que viria a dirigir a radiodifusão pública norueguesa, e de Magni Landstad. A casa era de gente de imprensa e de esquerda, num país ocupado por tropas alemãs dois meses depois do nascimento dele.
Foi estudar em Paris e defendeu doutorado em 1972, orientado por Raymond Aron, com trabalho sobre Karl Marx. A formação francesa deixou marca visível: ele lê Tocqueville, La Rochefoucauld, Montaigne e Pascal como fontes de mecanismo psicológico, no mesmo nível em que outros filósofos leem artigos de revista científica.
Nos anos setenta e oitenta virou um dos fundadores do marxismo analítico, o grupo que se reunia em setembro com Gerald Cohen, John Roemer, Erik Olin Wright e Adam Przeworski, e que apelidou a si mesmo de grupo do marxismo sem enrolação. O programa era simples e agressivo: submeter cada tese herdada às exigências de clareza lógica e de mecanismo explícito.
O livro de 1979, Ulisses e as Sereias, tratou do problema oposto ao das uvas verdes. Ali o tema é o sujeito que conhece a própria fraqueza futura e se amarra ao mastro de antemão, restringindo as próprias opções para se proteger de si mesmo.
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"Uvas verdes é o processo pelo qual a impossibilidade de alcançar um fim leva ao rebaixamento do valor atribuído a ele."
Jon Elster, Uvas Verdes: estudos sobre a subversão da racionalidade, 1983.
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Uvas Verdes saiu em 1983 e trouxe o argumento que ficou. A tese central acusa uma lacuna no coração da teoria da escolha racional: a teoria trata as preferências como dado bruto, ponto de partida que não se questiona, e o livro mostra que o dado bruto foi fabricado pelas circunstâncias que a própria teoria deveria avaliar.
Ele ensinou em Oslo, em Chicago e em Columbia, onde ocupou a cátedra Robert K. Merton de ciências sociais, e entre 2006 e 2011 esteve no Collège de France com a cadeira de racionalidade e ciências sociais. Ao longo do caminho escreveu sobre justiça local na distribuição de órgãos e vagas escolares, sobre as emoções como motor de conduta, e sobre as assembleias que redigiram as constituições americana e francesa.
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O homem que passou a carreira defendendo explicação por mecanismo acabou mostrando que o mecanismo mais eficiente da vida mental é o que apaga o próprio rastro.
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O método que ele defende recusa tanto a explicação por leis gerais quanto a narrativa solta. No lugar delas propõe mecanismos, peças causais pequenas e frequentes que ocorrem sob condições que ninguém sabe especificar de antemão, e que servem para entender depois sem prometer previsão antes.
A honestidade do procedimento aparece no incômodo que o próprio conceito produz. Reconhecer preferência adaptativa em alguém exige afirmar que o desejo declarado da pessoa não vale como palavra final sobre a vida dela, e Elster passou décadas cercando essa afirmação de condições para que ela não virasse licença para falar por cima dos outros.
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