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Duas pessoas igualmente atentas podem terminar a mesma tarde em lugares morais opostos.
A diferença não está em nada que elas fizeram. Os dois saíram no mesmo horário, com o carro revisado, sem telefone na mão e dentro da velocidade da via. Um deles chega em casa e nem lembra do trajeto.
Na frente do outro, uma criança aparece entre dois carros estacionados. A distância de frenagem é a mesma física para os dois, e o que separa os dois dias não passou pela cabeça nem pelo pé de ninguém.
Pela régua que a tradição prometeu, os dois deveriam sair iguais da tarde. Mesma decisão, mesmo cuidado, mesma perícia ao volante. O que veio depois foi mundo.
Não é o que acontece. O segundo motorista carrega uma coisa que o primeiro não carrega, e ela não é culpa. Nenhum inquérito vai encontrar falha na conduta dele, e mesmo assim ele não volta para a mesma vida do colega.
Williams deu nome ao que sobra: arrependimento de agente. É um sentimento disponível apenas para quem estava ao volante, e não para quem viu a mesma cena do banco do carona.
O carona pode lamentar com sinceridade, pode passar mal, pode acompanhar a família depois. A frase eu atropelei pertence a um só dos dois, e nenhum laudo de inocência apaga a primeira pessoa do verbo.
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O consolo está pronto desde o primeiro minuto e é verdadeiro: você não teve culpa. Ninguém quer o motorista convencido rápido demais por ele.
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Qualquer pessoa naquela cabine teria vivido a mesma cena. Um motorista que aceitasse o argumento na hora, jantasse bem e dormisse inteiro seria um sujeito estranho, e não um sujeito racional.
O que se espera dele mede a diferença: procurar a família, pagar o que puder, aparecer, ficar. Nenhuma dessas coisas se pede a quem só assistiu.
A sorte não entra apenas no resultado de um ato. Entra também na justificativa de uma escolha, e o segundo exemplo do argumento não tem nada de trágico.
Um pintor abandona a mulher e os filhos para viver de tinta longe de casa. Se o talento estiver lá, a vida se reorganiza em torno de uma obra e a escolha aparece justificada. Se não estiver, ele é um homem que largou a família por nada.
A existência do talento não estava disponível na hora da decisão. A justificativa chega atrasada e depende de uma informação que ninguém tinha quando a mala foi feita.
O argumento separa ainda dois tipos de azar. O que pertence ao projeto, descobrir que o dom não existia, desfaz a escolha por dentro. O acidente na estrada, vindo de fora, deixa a conta em aberto: o homem não foi refutado, foi interrompido.
A parte incômoda é a mesma nos dois casos. O juízo moral trabalha com o resultado, e o resultado é servido pelo mundo, não pelo agente.
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