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O alvo mais próximo do argumento tem nome e endereço. René Descartes, nas Meditações Metafísicas, de 1641, e nos Princípios da Filosofia, de 1644, descreve o entendimento humano como finito e a vontade como infinita, tão ampla quanto a de Deus, capaz de afirmar ou negar tudo que se apresente. O erro nasceria de a vontade avançar além do que o entendimento enxerga.
Spinoza estudou Descartes a fundo e publicou em 1663 uma exposição dos Princípios em ordem geométrica. Na Ética ele nega que exista uma faculdade separada chamada vontade: querer e entender são a mesma operação, porque ter uma ideia já é afirmá-la, e não sobra nenhum poder neutro pairando acima das ideias para escolher entre elas.
O segundo alvo é a teologia do mérito. Se nenhuma pessoa é causa primeira dos próprios atos, o castigo eterno perde a base sobre a qual se apoiava, e a culpa muda de natureza. Foi essa consequência, mais do que a metafísica, que colocou os livros dele nos editais de proibição holandeses e depois no Index romano, em 1679.
A objeção mais bem construída veio de Gottfried Leibniz, que visitou Spinoza em Haia em 1676 e discutiu com ele durante dias. Na Teodiceia, de 1710, ele acusa o sistema de reduzir tudo a uma necessidade cega e propõe no lugar um Deus que examina infinitos mundos possíveis e realiza o melhor, o que preservaria alguma contingência.
Immanuel Kant, na Crítica da Razão Prática, de 1788, atacou pelo outro lado. Chamou de liberdade de um espeto de assar a autonomia que se resume a mover-se por causas internas já dadas: o espeto gira sozinho depois de armado, e ninguém diria que ele decide girar. Sem liberdade de outra ordem, argumenta Kant, a lei moral fica sem sujeito a quem se dirigir.
Do lado das ciências, o argumento da carta ganhou um vizinho incômodo. Benjamin Libet, em experimentos publicados em 1983 na Universidade da Califórnia em São Francisco, registrou atividade elétrica no cérebro antes do instante em que o voluntário dizia ter decidido mover o pulso. Filósofos e neurocientistas brigam desde então sobre o que o registro prova.
A acusação que mais volta é a de que o determinismo dissolve a responsabilidade. Spinoza responde no Tratado Político, deixado incompleto em 1677, que a lei e a pena são causas como quaisquer outras: existem para entrar na cadeia que produz a conduta do cidadão, e funcionam sem precisar da hipótese de uma vontade que começa do zero.
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A recusa dele não é à liberdade e sim à exigência de que ela comece do nada. Uma decisão sem causa alguma seria acaso puro, e acaso não pertence a ninguém, não responde por nada e não serve de base para responsabilidade nenhuma.
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"De qual causa do que você decidiu hoje você não sabia nada às oito da manhã?"
Numa segunda-feira, um homem que dormiu quatro horas, almoçou às três e passou a tarde com o chefe cobrando um relatório atrasado manda às nove da noite uma mensagem encerrando um namoro de quatro anos. Nela ele descreve a decisão como algo que vinha amadurecendo desde o começo do ano.
Na quarta-feira, depois de duas noites de sono e do relatório entregue, ele abre a conversa e lê o que escreveu.
A mensagem continuava lá.
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