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ED 031
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A pedra que se acha livre no meio do voo

Numa carta de 1674, Spinoza deu consciência a uma pedra lançada e ela jurou voar por querer: o sentimento de liberdade cabe dentro da causa.

Uma pedra suspensa no ponto mais alto da curva, contra o céu de fim de tarde.

A pedra no alto da curva

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"Livre-arbítrio: faculdade de escolher entre alternativas sem determinação necessária" (Houaiss). Na Ética, publicada em 1677, Baruch Spinoza trata essa faculdade como um engano de perspectiva: o homem tem consciência do que quer e não tem nenhuma das causas que produziram o querer.

Uma pessoa entra no mercado, para diante da prateleira de café e leva um pacote. Se alguém perguntar por que aquele, ela responde que preferiu. A resposta é sincera e sai da boca sem nenhuma conferência.

Fora do relato dela existe a altura da gôndola, que colocou a marca na linha dos olhos, o preço terminado em noventa centavos, o cheiro da casa da avó guardado desde os seis anos, o anúncio visto três vezes na semana e o fato de a marca antiga ter acabado no estoque. Nada disso apareceu no momento da escolha, e nada disso deixou de agir.

A ideia do dia é que o sentimento de liberdade não prova liberdade nenhuma: ele mede apenas até onde vai a nossa visão da corrente de causas. Quanto menos causa a pessoa enxerga, mais livre ela se sente, e a sensação cresce justamente onde a informação falta.

Ninguém carrega na cabeça a lista das forças que agem sobre a própria escolha, e a lista não para de agir por ficar fora da consciência. O que chega ao relato é sempre o fim da corrente, o instante em que a mão já soltou.

O mesmo vale para o que pesa. Um profissional pede demissão numa terça e conta a decisão como amadurecimento de meses, sem contar a noite mal dormida, o comentário do cunhado no domingo e o saldo do mês. Um pai grita com o filho às sete da noite e chama aquilo de firmeza, sem a reunião das cinco no relato.

Spinoza escolheu para dizer o argumento um objeto sem nenhuma alma dentro, num texto curto que ele escreveu de improviso, respondendo a uma pergunta feita por carta.

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I  A ideia do dia

A pedra que jura ter escolhido o voo

Em 1674, um jovem médico alemão radicado em Amsterdã, Georg Hermann Schuller, escreveu pedindo a Spinoza que explicasse em poucas palavras o que ele entendia por liberdade e por necessidade. A resposta, catalogada hoje como carta 58, ocupa poucas páginas e dispensa o vocabulário da Ética.

Spinoza pede que se imagine uma pedra que recebe de uma causa externa uma quantidade determinada de movimento e continua a se mover depois que a mão do arremessador já parou. O que ela faz no ar é resultado da força recebida, da massa dela e do ar que atravessa, sem sobrar nada para decidir.

Vem então o passo que faz a carta valer quatro séculos depois. Suponha que a pedra pense, e que enquanto voa esteja consciente do esforço que faz para continuar em movimento. Essa pedra se julgaria livre e diria que persevera no voo por nenhuma outra razão além de querer.

O homem está na posição da pedra, escreve Spinoza: ele tem consciência do próprio apetite e continua sem ver a causa que o produziu. A consciência não mente, o desejo está mesmo ali sendo sentido, e o erro nasce quando ela é tomada como origem dele.

Impulso: a mão externa que lança, e que a pedra em voo não enxerga mais, porque ficou para trás no começo do movimento

Voo: a consciência do esforço, verdadeira como sensação e muda a respeito de quem imprimiu a força

Queda: a trajetória se cumpre no ponto em que ia terminar desde o primeiro instante, com ou sem a certeza de estar dirigindo o percurso

A liberdade que Spinoza recusa é a de causa primeira, uma vontade que começaria em si mesma e não responderia a nada anterior. A que ele mantém é outra, e passa por conhecer a força que empurra.

A Ética estende a imagem a cenas comuns. O bêbado acredita dizer por decreto livre da mente o que no dia seguinte preferia ter calado, a criança acredita apetecer o leite por vontade própria, o assustado acredita escolher a fuga. Todos falam com a mesma sinceridade da pedra em voo.

Daí não sai a conclusão de que agir e não agir dão no mesmo. Spinoza escreveu sobre política a vida inteira e defendeu a liberdade de opinião como condição de um Estado que funcione.

Livre, no vocabulário dele, é o que existe e age pela necessidade da própria natureza, sem ser forçado de fora. Nenhum homem alcança tal estado por inteiro, porque todo mundo segue sendo parte da natureza. O que se alcança é uma proporção maior de ação e menor de reação, conforme o entendimento avança sobre as causas.

A pedra que soubesse quem a lançou faria a mesma curva no ar e pararia de se atribuir o voo. Quem entende de onde vem o próprio apetite ganha alguma folga diante dele, e a Ética chama de liberdade essa folga.

 
 

II  Quem pensou

O polidor de lentes expulso da própria comunidade

Baruch Espinosa nasceu em Amsterdã em 1632, filho de comerciantes judeus vindos de Portugal, gente que fugiu da Inquisição e refez a vida no bairro do Jodenbuurt. Ele estudou na escola da comunidade e tocou a casa comercial da família depois que o pai adoeceu.

Em 27 de julho de 1656, aos vinte e três anos, a sinagoga portuguesa de Amsterdã leu contra ele um herem, o edital de excomunhão mais duro que já emitira, proibindo qualquer membro de falar com ele, de ler o que escrevesse e de chegar a menos de quatro côvados dele. O edital não lista as opiniões que motivaram a pena.

Ele deixou o nome hebraico de lado, passou a assinar Benedictus de Spinoza e a viver de polir lentes para lunetas e microscópios, ofício que o astrônomo holandês Christiaan Huygens elogiou por carta ao irmão. Morou em Rijnsburg, depois em Voorburg e por fim em Haia, sempre em quarto alugado na casa de outra família.

Em 1673 o eleitor palatino ofereceu a ele uma cátedra de filosofia em Heidelberg, com liberdade de ensino e o pedido de que não perturbasse a religião estabelecida. Spinoza recusou por escrito, alegando que não sabia dentro de que limites a tal liberdade caberia.

"Os homens se enganam ao se julgarem livres, opinião que consiste apenas nisto: que estão conscientes das próprias ações e ignorantes das causas pelas quais são determinados."

Baruch Spinoza, Ética, parte 2, proposição 35, escólio, publicada em 1677.

O Tratado Teológico-Político saiu em 1670 sem nome de autor e com editora falsa na capa. Em 1674 as autoridades da Holanda proibiram o livro, e a Ética, pronta desde 1675, ficou na gaveta depois que os amigos avisaram que publicar acabaria em processo. O texto só foi impresso no fim de 1677, meses depois de o autor deixar de existir aos quarenta e quatro anos, de doença pulmonar antiga, agravada pelo pó de vidro das lentes.

A carta da pedra sai de um homem que teve a comunidade, o nome de nascimento e a permissão de publicar retirados por causas que ele não escolheu, e que gastou a vida inteira explicando por que a vontade não é a primeira peça do mundo.

A carta 58 pertence a uma correspondência com médicos, comerciantes e secretários da Royal Society. Schuller era amigo de Ehrenfried Walther von Tschirnhaus, matemático que discutia movimento e liberdade com Spinoza, e a pedra aparece como resposta rápida a uma dúvida de leitura.

 

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III  Contra o quê

Contra a vontade infinita de Descartes e contra o elogio do acaso

O alvo mais próximo do argumento tem nome e endereço. René Descartes, nas Meditações Metafísicas, de 1641, e nos Princípios da Filosofia, de 1644, descreve o entendimento humano como finito e a vontade como infinita, tão ampla quanto a de Deus, capaz de afirmar ou negar tudo que se apresente. O erro nasceria de a vontade avançar além do que o entendimento enxerga.

Spinoza estudou Descartes a fundo e publicou em 1663 uma exposição dos Princípios em ordem geométrica. Na Ética ele nega que exista uma faculdade separada chamada vontade: querer e entender são a mesma operação, porque ter uma ideia já é afirmá-la, e não sobra nenhum poder neutro pairando acima das ideias para escolher entre elas.

O segundo alvo é a teologia do mérito. Se nenhuma pessoa é causa primeira dos próprios atos, o castigo eterno perde a base sobre a qual se apoiava, e a culpa muda de natureza. Foi essa consequência, mais do que a metafísica, que colocou os livros dele nos editais de proibição holandeses e depois no Index romano, em 1679.

A objeção mais bem construída veio de Gottfried Leibniz, que visitou Spinoza em Haia em 1676 e discutiu com ele durante dias. Na Teodiceia, de 1710, ele acusa o sistema de reduzir tudo a uma necessidade cega e propõe no lugar um Deus que examina infinitos mundos possíveis e realiza o melhor, o que preservaria alguma contingência.

Immanuel Kant, na Crítica da Razão Prática, de 1788, atacou pelo outro lado. Chamou de liberdade de um espeto de assar a autonomia que se resume a mover-se por causas internas já dadas: o espeto gira sozinho depois de armado, e ninguém diria que ele decide girar. Sem liberdade de outra ordem, argumenta Kant, a lei moral fica sem sujeito a quem se dirigir.

Do lado das ciências, o argumento da carta ganhou um vizinho incômodo. Benjamin Libet, em experimentos publicados em 1983 na Universidade da Califórnia em São Francisco, registrou atividade elétrica no cérebro antes do instante em que o voluntário dizia ter decidido mover o pulso. Filósofos e neurocientistas brigam desde então sobre o que o registro prova.

A acusação que mais volta é a de que o determinismo dissolve a responsabilidade. Spinoza responde no Tratado Político, deixado incompleto em 1677, que a lei e a pena são causas como quaisquer outras: existem para entrar na cadeia que produz a conduta do cidadão, e funcionam sem precisar da hipótese de uma vontade que começa do zero.

A recusa dele não é à liberdade e sim à exigência de que ela comece do nada. Uma decisão sem causa alguma seria acaso puro, e acaso não pertence a ninguém, não responde por nada e não serve de base para responsabilidade nenhuma.

"De qual causa do que você decidiu hoje você não sabia nada às oito da manhã?"

Numa segunda-feira, um homem que dormiu quatro horas, almoçou às três e passou a tarde com o chefe cobrando um relatório atrasado manda às nove da noite uma mensagem encerrando um namoro de quatro anos. Nela ele descreve a decisão como algo que vinha amadurecendo desde o começo do ano.

Na quarta-feira, depois de duas noites de sono e do relatório entregue, ele abre a conversa e lê o que escreveu.

A mensagem continuava lá.

 
 

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