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A palavra vaca diz o que fica de fora
No Pramanavarttika, no século VII, Dharmakirti defendeu que a palavra funciona por exclusão: vaca separa tudo que não é vaca.
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Três vacas, nenhum traço em comum
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Vaca: “a fêmea do touro” (Dicionário Houaiss). A definição empresta o sentido de outra palavra e supõe que existe, em cada vaca do mundo, um traço comum que a palavra alcança. Na Índia do século VII, um monge budista escreveu que esse traço não está em vaca nenhuma, e que a palavra trabalha ao contrário.
Pense num pasto com três animais. Uma vaca malhada, magra, de chifre torto. Uma vaca preta, gorda, sem chifre. Uma bezerra ruiva, que ainda mama. Nenhum pelo, nenhum peso, nenhuma idade se repete de um bicho para o seguinte. Se a palavra apontasse uma forma visível, teria dificuldade de achar qual.
Mesmo assim, uma criança de quatro anos aponta os três e diz vaca, sem hesitar. Ela não mediu nada e não consultou dicionário. Algo na palavra funcionou antes de qualquer definição.
A explicação mais antiga, aceita pela maioria das escolas indianas, dizia que cada vaca carrega uma vaquice, uma forma comum e eterna presente em todas. Os gramáticos e os lógicos da escola Nyaya (a escola indiana da lógica e do debate) chamavam essa forma de jati (universal, o gênero que se repete em vários indivíduos). A palavra vaca, nessa leitura, apontava direto para ela.
Os budistas tinham motivo para desconfiar. A doutrina deles negava qualquer essência fixa e eterna. Se tudo muda a cada instante, uma vaquice parada dentro de cada vaca era exatamente o tipo de entidade que Buda tinha mandado procurar e não achar.
O monge que levou a desconfiança até a última consequência se chamava Dharmakirti. No livro Pramanavarttika (Comentário sobre os meios de conhecimento válido), ele trocou a vaquice por um gesto de tesoura.
A palavra vaca, para ele, não acrescenta nada aos três bichos do pasto. Ela corta, como a tesoura que recorta um molde no papel. Separa de um lado o cavalo, o búfalo, a pedra, a árvore, e deixa no lugar o que sobrou.
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I A ideia do dia
O corte da tesoura
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A teoria tem um nome em sânscrito: apoha (exclusão, o afastamento do que é outro). A palavra completa é anyapoha, exclusão do outro. Quem a lançou foi o lógico budista Dignaga, por volta do ano 500, no Pramanasamuccaya (Compêndio dos meios de conhecimento). Dharmakirti herdou a tese e a reconstruiu no Pramanavarttika, um século e pouco depois.
A ideia do dia cabe numa frase: uma palavra não nomeia o que os bichos têm em comum, nomeia o que elas não são. Vaca quer dizer, a rigor, não não-vaca. A dupla negação parece truque de lógico, mas descreve uma operação que todo falante faz sem notar.
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“A palavra exprime o seu objeto pela exclusão dos outros.”
Dignaga, Pramanasamuccaya, capítulo 5, c. 500
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Dharmakirti parte de uma tese budista sobre o real. Para ele, o que existe de fato são os svalakshana (particulares, cada ente único e momentâneo, com marca própria). A vaca malhada desta manhã é um particular. A mesma vaca à tarde já é outro, porque mudou.
Esses particulares só se conhecem pela percepção direta, que Dharmakirti chama de pratyaksha (percepção sem palavra nem conceito). O olho vê a vaca malhada inteira, com o chifre torto e a lama na pata. A percepção não generaliza: ela pega só aquele bicho, naquele instante.
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A palavra não pega o bicho; ela traça uma borda em volta de muitos bichos ao mesmo tempo.
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Daí a pergunta que Dharmakirti precisa responder: se não existe vaquice, por que agrupamos a malhada, a preta e a bezerra, e não a malhada com o búfalo? A resposta dele é prática. Os três particulares produzem efeitos parecidos em quem lida com eles.
O exemplo do Pramanavarttika vem da medicina. Várias ervas diferentes, de folha, cheiro e raiz distintos, baixam a febre. Ninguém diz que elas partilham uma essência de antifebre. Elas são agrupadas porque cumprem a mesma função, e a palavra que as junta separa todas as plantas que não cumprem.
O raciocínio, em 3 passos
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1. Só os particulares existem de fato, cada um único e passageiro.
2. Particulares diferentes produzem efeitos parecidos, como dar leite, puxar arado, baixar a febre.
3. A palavra agrupa os que produzem o efeito e exclui todos os que não produzem; nenhuma essência comum precisa existir.
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O conceito que nasce desse corte é, para Dharmakirti, uma construção da mente, útil e enganosa ao mesmo tempo. Útil porque guia a ação: quem procura leite vai até a vaca. Enganosa porque faz parecer que existe, lá fora, uma vaca em geral, quando só existem vacas.
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II Quem pensou
O monge de Nalanda
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Dharmakirti nasceu numa família brâmane do sul da Índia, segundo as crônicas tibetanas. A mais conhecida delas é a História do budismo na Índia, que o monge tibetano Taranatha terminou em 1608, quase mil anos depois dos fatos. A região que Taranatha indica, Trimalaya, não tem localização segura nos mapas de hoje.
As datas também vêm de cálculo. O indólogo austríaco Erich Frauwallner, num estudo de 1961, situou a vida de Dharmakirti entre cerca de 600 e 660. Outros especialistas recuaram ou avançaram algumas décadas; nenhum documento do período registra o ano do nascimento.
Ainda moço, segundo Taranatha, Dharmakirti trocou os textos brâmanes pelos budistas. Foi para Nalanda, o grande mosteiro universitário do norte da Índia, no atual estado de Bihar. Ali se ordenou monge e estudou com Dharmapala, abade e comentador de textos budistas.
O mestre que ele mais queria era outro. Os escritos de Dignaga circulavam em Nalanda havia um século, e Dharmakirti os leu como base de toda a lógica budista. Quis estudar com Ishvarasena, aluno de um aluno de Dignaga, e segundo as crônicas logo superou o professor na leitura do Pramanasamuccaya.
A obra que saiu dessa leitura tem cerca de 2.000 versos em sânscrito, divididos em quatro capítulos. Os capítulos tratam da inferência, da validade do conhecimento, da percepção e do debate com os adversários. A teoria do apoha atravessa o primeiro capítulo, onde Dharmakirti explica como um conceito se forma.
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“A semelhança está só no efeito, e é o efeito que nos faz dar a muitos um único nome.”
Dharmakirti, Pramanavarttika, capítulo 1, século VII
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Dharmakirti escreveu um comentário e acabou dono do assunto.
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O Pramanavarttika virou, por oito séculos, o texto de referência da lógica budista. No Tibete, onde chegou traduzido no século XI, ainda se decora em mosteiros como Sera e Drepung, e os monges debatem os versos em pé, batendo palmas a cada objeção.
Taranatha conta ainda que Dharmakirti escreveu os versos sem discípulo à altura e deixou dito que a obra seria entendida só depois dele. O episódio é lenda de crônica: não há texto do próprio autor que o confirme.
O desfecho segue em aberto. A tradição tibetana diz que Dharmakirti terminou a vida em Kalinga, no leste da Índia, num mosteiro que ele próprio teria fundado. Nem o ano nem o lugar exato do túmulo aparecem em fonte alguma da época, e os historiadores tratam o relato como incerto, porque a única fonte é a crônica escrita quase mil anos depois.
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