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A máxima que todo mundo repete diz, em latim, que as entidades não devem ser multiplicadas além da necessidade. Ela aparece em livro didático, em palestra de divulgação e em camiseta, sempre atribuída ao frade de Surrey.
Ninguém achou a frase nos escritos dele. A ocorrência mais antiga localizada está em John Punch, teólogo franciscano irlandês que lecionava em Roma, num comentário à obra de Duns Scotus publicado em 1639. Punch nem apresenta a frase como descoberta própria: chama de axioma comum, coisa que já corria de boca em boca nas escolas.
O apelido também é tardio. A associação entre o princípio e uma navalha aparece no século 19, com autores como Guillaume Libri e William Hamilton, que popularizaram a imagem da lâmina cortando o supérfluo e colaram nela o nome de Ockham em definitivo.
Sobrou uma máxima sem cláusula. A formulação de Guilherme carrega a necessidade dentro da frase e admite explicitamente a exceção. A versão de circulação popular virou um slogan sobre simplicidade, e slogan não tem onde guardar exceção.
O primeiro problema da versão popular é que simplicidade não é um critério único. Uma explicação pode ser simples no número de coisas que supõe e monstruosa no número de passos que exige, ou ao contrário.
O sistema de Copérnico é o exemplo escolar preferido, e é o mais mal contado. Na versão publicada em 1543, ele não usava menos círculos que o modelo de Ptolomeu, usava um número comparável. A vitória veio depois, com Kepler e as órbitas elípticas, e não pela contagem que a lenda atribui à lâmina.
O segundo problema é mais duro. A explicação verdadeira é, com frequência incômoda, a complicada. Uma pessoa com fadiga, dor articular e manchas de pele tem uma explicação econômica disponível, o excesso de trabalho, e uma explicação cara, uma doença autoimune com meia dúzia de mecanismos independentes. A cara é a que o exame confirma.
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A lâmina continua correta nos dois casos, porque ela nunca apostou na simplicidade: ela apenas segura a entidade extra até a necessidade aparecer, e o exame de sangue é exatamente a necessidade aparecendo.
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Newton reescreveu o princípio em 1687, na primeira das Regras do Filosofar, e o reescreveu como regra de admissão: não se devem admitir mais causas das coisas naturais do que as que sejam verdadeiras e bastem para explicar os fenômenos.
A palavra que Newton acrescentou é bastem. A lâmina só corta o que sobra depois que a explicação já dá conta. Diante de fenômeno que a explicação econômica não cobre, cortar é erro de método, não virtude.
Uma mensagem enviada de manhã e ainda sem resposta às seis da tarde aceita as duas leituras. Uma delas supõe uma pessoa magoada, uma conversa lembrada de outro dia e um silêncio deliberado. A outra supõe um celular sem bateria.
"Quantas entidades você inventou hoje para explicar um silêncio?"
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