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A mesma vida outra vez, e mais outra
No parágrafo 341 de A Gaia Ciência, um demônio anuncia a repetição infinita da mesma vida e transforma a pergunta no peso de cada escolha.
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A pedra onde a anotação de 1881 foi feita
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Oo despertador toca às 6h40 e o botão de soneca é apertado duas vezes, como nos últimos quatro meses. O café é o mesmo pó, na mesma xícara, requentado às três da tarde porque esfriou na primeira tentativa. O trajeto tem quarenta minutos e três semáforos que sempre pegam fechados.
Ninguém escolheu essa sequência numa reunião. Ela foi se assentando, um dia colando no outro, até virar o formato padrão de uma semana inteira. Perguntado sobre a rotina, o dono dela responde que é temporária, que a fase é de aperto, que ano que vem muda.
Essa frase sobre o ano que vem é a peça central do arranjo. Ela transforma a semana atual em rascunho. O que está sendo vivido agora não conta de verdade, porque a versão que conta ainda vai começar, num ponto futuro que nunca chega e por isso nunca é cobrado.
A ideia do dia desmonta o rascunho por uma via estranha: supõe que a semana atual não seja rascunho nenhum, e sim a versão definitiva, entregue exatamente assim quantas vezes for possível contar. Nada de novo, nada de corrigido, nada de compensado depois.
Não se trata de uma previsão sobre o universo, nem de uma teoria sobre o tempo físico, nem de promessa de outra vida. É um instrumento de medição, e o que ele mede é o peso de cada escolha pequena no instante em que a escolha está sendo feita.
O instrumento funciona como uma pergunta única, aplicada a um gesto qualquer: a mesma discussão engolida na mesa de reunião, o mesmo domingo à tarde no sofá, a mesma resposta seca dada em casa às onze da noite. Você quer o gesto assim mais uma vez, e ainda inúmeras vezes?
Quem responde com um encolher de ombros descobre no ato que estava tratando a própria semana como despesa provisória. Quem responde com um sim descobre outra coisa, e o susto é do mesmo tamanho nos dois casos.
A pergunta foi escrita em 1882, num parágrafo curto de um livro de aforismos, e chega ao leitor pela boca de um personagem que aparece uma vez só e nunca mais volta.
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I A ideia do dia
O maior dos pesos posto sobre um gesto qualquer
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O parágrafo 341 de A Gaia Ciência tem um título de duas palavras e uma cena montada em três frases. A cena começa na solidão mais completa que o leitor consegue imaginar, e nela entra um visitante não convidado.
Um demônio se esgueira até você, escreve o texto, e diz: esta vida, como você a vive agora e a viveu, você terá de vivê-la ainda uma vez e ainda inúmeras vezes. Nada de novo haverá nela, apenas cada dor e cada prazer, cada pensamento e cada suspiro, tudo na mesma sequência e na mesma ordem.
A lista continua com detalhes de tamanho ridículo, e o ridículo é proposital: a aranha e o luar entre as árvores, este instante e o próprio demônio incluídos. Até a ampulheta da existência será virada outra vez, e você com ela, grão de poeira que é.
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O aviso não vem com escapatória. Nenhuma correção, nenhum atalho, nenhuma cena decisiva guardada para a última rodada.
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O texto então pergunta o que aconteceria com quem escuta o anúncio, e oferece exatamente duas reações possíveis. A primeira é ranger os dentes e amaldiçoar o mensageiro. A segunda é chamar aquele momento de divino e dizer que nunca se ouviu nada mais generoso.
O ponto de virada está no que separa uma reação da outra. Não é otimismo, nem coragem, nem disposição de espírito num dia bom. É o conteúdo real do que se andou fazendo com as horas.
O aforismo fecha com a consequência prática, e ela é a frase que sustenta a edição inteira: a pergunta, diante de tudo e de cada coisa, você quer assim mais uma vez e inúmeras vezes, cairia sobre suas ações como o maior dos pesos.
Peso, aqui, é palavra técnica. O que não pesa flutua, e o que flutua não decide nada. Uma escolha sem peso é a escolha que se toma dizendo que depois se ajusta, que a próxima vai ser diferente, que essa não conta muito.
O mecanismo do aforismo pode ser lido em três movimentos:
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Anúncio: a mesma vida volta, idêntica, sem acréscimo e sem edição
Prova: a reação ao anúncio revela o que a vida atual vale para quem a vive
Consequência: a pergunta vira o peso que cada ação passa a carregar antes de ser feita
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O trecho não manda ninguém mudar nada. Ele instala uma balança e sai de cena, o que é bem diferente de entregar uma receita de conduta.
A balança pega qualquer item, e é justamente o item pequeno que denuncia mais. A conversa adiada há sete meses, o telefonema de quinze minutos, a hora e meia diária de rolagem de tela, o hábito de responder no automático. Cada um deles, multiplicado por infinito, deixa de parecer detalhe.
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II Quem pensou
O caminhante que subiu a mil e oitocentos metros
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A anotação que deu origem ao parágrafo foi feita em agosto de 1881, na Suíça, perto do lago Silvaplana, na Alta Engadina. O autor caminhava por ali quase todo dia e parou diante de um bloco de pedra de formato piramidal, a certa distância de Surlej.
Ele tinha trinta e seis anos, morava em pensões baratas e vivia de uma aposentadoria concedida pela Universidade da Basileia em 1879, quando abandonou a cadeira de filologia clássica por causa da saúde. As crises de enxaqueca duravam dias, com vômito e perda parcial de visão, e a escrita era feita nos intervalos entre elas.
Sils-Maria fica a cerca de mil e oitocentos metros de altitude, e o clima seco da região era o único que lhe dava semanas seguidas de trabalho. Ali passou sete verões, alugando o mesmo quarto simples na casa de um comerciante local, com uma cama, uma mesa e livros emprestados.
A anotação daquele dia traz no alto uma frase curta sobre estar seis mil pés além do ser humano e do tempo. Ela foi escrita a lápis, num caderno de bolso, e o pensamento que ela guarda só apareceria em livro no ano seguinte.
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"Esta vida, tal como a vives agora e a viveste, terás de vivê-la ainda uma vez e ainda inúmeras vezes; e nada haverá de novo nela, mas cada dor e cada prazer, cada pensamento e cada suspiro terão de voltar a ti, tudo na mesma sequência e na mesma ordem."
Friedrich Nietzsche, A Gaia Ciência, parágrafo 341, 1882.
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A Gaia Ciência saiu em 1882 pela editora de Chemnitz que publicava seus livros, com tiragem pequena e venda quase nula. A primeira edição tinha quatro partes; a quinta parte e o prefácio novo só entraram em 1887, quando o autor já havia publicado outros quatro títulos.
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O parágrafo mais denso do livro é o penúltimo da quarta parte, encaixado entre um aforismo sobre música e a abertura de outro livro inteiro.
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O aforismo seguinte, o 342, apresenta um personagem descendo de uma montanha depois de dez anos de solidão, e é o mesmo texto que abriria Assim Falou Zaratustra em 1883. O livro dos aforismos termina, portanto, empurrando o leitor direto para dentro do próximo.
Em Ecce Homo, escrito em 1888, o autor voltaria ao episódio da pedra de Surlej e o descreveria como a concepção fundamental da obra seguinte, datando-a com precisão de mês e de lugar, algo que ele quase nunca fazia com as próprias ideias.
O restante da biografia cabe em poucas linhas de calendário: aluguéis baratos em Gênova, Rapallo, Nice e Turim, livros impressos às próprias custas, leitores contados nos dedos até o crítico dinamarquês Georg Brandes dar um curso sobre ele em Copenhague, em 1888, dez anos depois da saída da universidade.
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