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A mente que não sente a dor do corpo

Em 1734, Anton Wilhelm Amo, nascido na atual Gana, defendeu que só o corpo vivo sente; à mente cabe conhecer o que ele padece.

Homem africano de casaca do século XVIII diante de uma vela acesa, a mão afastada da chama.

A chama queima a mão, não o pensamento

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Apatia: "estado de insensibilidade; indiferença, falta de ânimo" (Dicionário Houaiss). A definição descreve um defeito, alguém que deixou de se importar. Em 1734, um filósofo africano usou a mesma palavra para descrever a condição normal da mente humana, e não via nela defeito algum.

Encoste a mão numa panela quente. A pele arde antes de qualquer decisão. O braço recua sozinho, o dedo fica vermelho, e só depois vem a frase interna: queimei. Entre o calor e a frase existe um intervalo curto, mas real.

A pergunta parece boba. Quem sente a queimadura: o dedo ou você? A resposta comum mistura os dois. Dizemos que a mente sofre, que a alma se aflige, que o pensamento dói junto com a carne.

No século XVII, René Descartes deu forma filosófica a essa mistura. A mente seria uma substância que pensa, separada do corpo, mas ainda assim tocada por ele: a dor do dedo chegaria até ela, e ela sentiria.

A palavra grega apatheia (ausência de padecimento) mostra onde o Houaiss falha. Para os gregos, páthos era tudo o que alguém sofre de fora, o que lhe acontece sem ser escolhido. Apatheia era a condição de quem não pode ser afetado assim. Nada a ver com preguiça ou desinteresse.

Foi com esse sentido antigo que um doutor de pele negra, nascido na costa da atual Gana, escreveu sua tese em latim. O título começa assim: De humanae mentis apatheia, Sobre a impassibilidade da mente humana.

O autor se chamava Anton Wilhelm Amo. Ele foi levado criança para a Europa, cresceu num palácio de duque alemão e se tornou o primeiro africano a obter doutorado numa universidade europeia.

A tese dele separa a cena da panela em duas partes que nunca se tocam: um corpo que sofre e uma mente que apenas sabe.

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I  A ideia do dia

Quem queima é o dedo

A tese foi defendida em abril de 1734 na Universidade de Wittenberg, na Saxônia. São poucas páginas em latim, divididas em capítulos curtos, com definições numeradas e conclusões tiradas uma a uma, ao estilo dos manuais de lógica da época.

O orientador formal era o professor Martin Gotthelf Löscher, médico e filósofo de Wittenberg. Ainda em 1734, um estudante chamado Johannes Theodosius Meiner defendeu, sob a presidência de Amo, uma segunda disputa que desenvolvia a mesma separação entre o que cabe à mente e o que cabe ao corpo.

O título completo já resume o argumento inteiro.

"De humanae mentis apatheia seu sensionis ac facultatis sentiendi in mente humana absentia et earum in corpore nostro organico ac vivo praesentia."

Anton Wilhelm Amo, tese de doutorado, Wittenberg, 1734

Em português: sobre a impassibilidade da mente humana, ou a ausência da sensação e da faculdade de sentir na mente humana, e a presença delas em nosso corpo orgânico e vivo.

O raciocínio de Amo parte de uma definição. Sentir, para ele, é ser afetado: receber em si a marca de algo que vem de fora, como a cera recebe o selo. Só pode sentir quem pode receber marca, e só recebe marca o que tem partes, extensão e movimento.

A mente não tem partes, extensão nem movimento. Ela é espírito, uma substância que pensa e age por conta própria. Se não tem partes, nada pode empurrá-la, amassá-la ou aquecê-la. Logo, a mente não sente.

Os passos da tese, na ordem de Amo

1. Sentir é padecer uma alteração vinda de um objeto externo.

2. Só padece alteração o que é material e tem partes.

3. A mente é imaterial e não tem partes.

4. Logo, a sensação e a faculdade de sentir pertencem ao corpo vivo.

O quarto passo traz uma palavra que costuma passar batida: vivo. Um cadáver também é corpo, tem pele e nervos, e não sente nada. Para Amo, a sensação exige um organismo funcionando, com sangue circulando e órgãos em operação. A vida do corpo é a condição da dor.

A dor mora no corpo; a mente só toma conhecimento dela.

Sobra uma pergunta óbvia: se a mente não sente, como sabemos que estamos queimando? Amo responde com uma distinção fina. A mente não tem a sensação, mas tem a ideia da sensação. Ela conhece o que o corpo padece, do mesmo modo que alguém lê uma carta sem ter sido ele quem a escreveu.

Daí a tese aproveitar uma ideia de Descartes para virar contra ele. Se a mente é de fato imaterial, como o próprio Descartes dizia, não faz sentido que ela padeça algo material. O dualismo (a doutrina de que mente e corpo são duas substâncias distintas) levado até o fim proíbe a mente de sentir.

 
 

II  Quem pensou

O menino de Axim

Anton Wilhelm Amo nasceu em torno de 1703, perto de Axim, na região que os europeus chamavam de Costa do Ouro, hoje o sudoeste de Gana. Era do povo nzema, que vive até hoje naquela faixa do litoral.

Ainda criança, foi levado a Amsterdã pela Companhia Holandesa das Índias Ocidentais, empresa que operava fortes e comércio de escravizados na costa africana. Não se sabe se foi capturado, vendido ou entregue pela família: os registros da companhia não dizem.

Em 1707 ele aparece na corte de Wolfenbüttel, no norte da Alemanha, dado de presente ao duque Anton Ulrich de Brunswick-Wolfenbüttel. Foi batizado na capela do palácio e recebeu os nomes do duque e do filho dele, August Wilhelm. Amo foi o nome que manteve de origem.

A corte tratou o menino como protegido, não como criado. Ele recebeu educação completa, aprendeu latim, grego, hebraico, francês, holandês e alemão, e em 1727 se matriculou na Universidade de Halle, um dos centros do iluminismo alemão.

Em Halle, em 1729, defendeu a primeira disputa acadêmica, De iure Maurorum in Europa, Sobre o direito dos africanos na Europa. O texto se perdeu. Sabe-se do tema apenas por uma notícia de jornal da época, que registra a defesa e o assunto.

De lá foi para Wittenberg, onde concluiu o doutorado em filosofia com a tese sobre a mente. O reitor da universidade, Johann Gottfried Kraus, escreveu uma carta pública de congratulação e lembrou que a África tinha dado ao mundo Tertuliano, Agostinho e o poeta Terêncio.

"A África e suas regiões costeiras foram mãe de homens notáveis pelo engenho, pelo saber e pela piedade."

Johann Gottfried Kraus, carta de congratulação a Amo, Wittenberg, 1734

Amo voltou a Halle como professor e, em 1738, publicou o livro mais extenso que deixou: Tractatus de arte sobrie et accurate philosophandi, Tratado sobre a arte de filosofar com sobriedade e precisão. Depois lecionou em Jena, a partir de 1739.

O primeiro africano doutor na Europa saiu dela uma década depois do diploma.

O ambiente mudou nos anos seguintes. Os protetores da casa de Wolfenbüttel tinham falecido, e em 1747 circulou em Halle uma peça satírica que ridicularizava Amo por ter se apaixonado por uma mulher alemã. Pouco depois, ele embarcou de volta para a Costa do Ouro.

Em 1753, o médico de navio suíço David Henri Gallandat o encontrou em Axim. Contou que o pai e uma irmã de Amo ainda viviam ali, e que ele tinha fama de sábio e adivinho. Mais tarde, Amo passou a viver no forte holandês de San Sebastian, em Shama, mais a leste no litoral.

Depois desse registro, as fontes silenciam. A data e as circunstâncias do fim da vida dele são desconhecidas, porque nenhum documento holandês ou alemão encontrado até hoje as anota.

 

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III  Contra o quê

Contra a alma que padece

O adversário de Amo é René Descartes, filósofo francês que tinha morrido em 1650 e cuja obra dominava as universidades europeias. Descartes separou a mente do corpo como ninguém antes, mas deixou entre os dois uma ponte que Amo considerou impossível.

Nas Meditações, de 1641, Descartes insiste que a mente está unida ao corpo de um modo íntimo. Se fosse apenas hóspede, perceberia a ferida pela razão, sem dor nenhuma.

"Não estou alojado em meu corpo como um piloto em seu navio, mas estou tão estreitamente unido a ele que componho com ele um único todo."

René Descartes, Meditações sobre a Filosofia Primeira, Sexta Meditação, 1641

Em 1649, no livro As Paixões da Alma, Descartes foi além. Explicou que os movimentos do corpo chegam à glândula pineal (uma pequena estrutura no centro do cérebro) e ali afetam a alma, que passa a sentir alegria, tristeza, medo. A alma, para ele, padece.

Amo aponta a contradição. Se a mente é imaterial e o corpo é extensão, nada material pode tocar a mente. Dizer que ela padece por meio de uma glândula é colocar uma porta entre dois cômodos que, por definição, não têm parede em comum.

Descartes separou mente e corpo e depois os fez sofrer juntos; Amo cortou o sofrimento pela metade.

A crítica também mirava os médicos de Halle. Georg Ernst Stahl, professor de medicina da universidade, defendia que a alma comandava cada função do corpo, inclusive a digestão e a febre. Amo recusava essa alma faz-tudo: a vida orgânica era trabalho do corpo, e a mente ficava com o conhecimento.

A posição dele tem um custo, e Amo o assume. Se a mente não sente, também não sofre de fome, de frio ou de saudade do jeito que o corpo sofre. Ela só registra, julga e decide. A tristeza, nessa leitura, é um estado do organismo que a mente conhece, sem ser ela mesma triste.

O efeito da tese aparece na cena mais banal. Uma mulher espera no consultório do dentista. A anestesia ainda não pegou totalmente, e a broca encosta num nervo. O corpo inteiro se encolhe na cadeira.

Ela pensa, com toda clareza: está doendo, faltam dois minutos, depois acaba. A dor está no dente. O pensamento sobre a dor está calmo, contando o tempo, sabendo o que vem.

"Quando algo dói, quem sabe que dói está doendo também?"

A broca parou.

 
 
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Qual é o argumento central de Anton Wilhelm Amo para dizer que a mente não sente a dor?

AA apatheia é um defeito que faz a mente deixar de se importar
BA mente é imaterial e sem partes, e só o que tem partes recebe a marca de algo externo
CA mente só sente quando o corpo já está morto, porque então ela fica livre
DDescartes provou que a dor atravessa a ponte entre mente e corpo

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