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A igualdade entre os homens é o que produz a guerra
No capítulo 13 do Leviatã, Hobbes deriva o conflito da igualdade de forças e faz o pacto nascer do medo, nunca da bondade.
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O gigante do Leviatã, feito de gente miúda
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Um prédio de dez andares tem uma vaga de garagem sobrando e dois moradores que chegam do trabalho no mesmo horário. Nenhum dos dois é ladrão, nenhum dos dois quer prejudicar ninguém, e os dois cumprimentam o porteiro pelo nome todas as manhãs.
Ainda assim, a vaga vira assunto de assembleia. Depois vira bilhete na porta. Depois vira o carro estacionado quinze minutos antes só para garantir, o que obriga o outro a estacionar vinte minutos antes, o que obriga o primeiro a sair de casa mais cedo ainda.
Ninguém ali ficou pior de caráter no meio do processo. O que aconteceu é que dois desejos iguais encontraram uma coisa que não se divide, e cada um dos dois calculou o que o outro faria.
A leitura popular do inglês que escreveu o Leviatã diz outra coisa. Diz que ele achava o ser humano mau, lobo do próprio semelhante, movido por crueldade, e que o Estado existe para segurar essa maldade pela coleira. A frase do lobo nem está no Leviatã, e a palavra maldade não faz trabalho nenhum no argumento.
A ideia do dia é que o conflito, no capítulo 13, é deduzido da igualdade. Não da inveja, não da perversidade, não de uma natureza corrompida. De uma constatação seca sobre forças parecidas demais para que alguém possa relaxar.
E é a mesma igualdade que produz a saída. Um ser humano forte o bastante para dominar todos os outros nunca teria motivo para assinar coisa alguma. O pacto só é pensável entre iguais assustados, cada um sabendo que a própria força não cobre a distância entre acordar e dormir.
O argumento tem quatro páginas, não tem exemplo histórico e não tem exortação moral. Ele funciona como uma peça de geometria, que era exatamente a ambição do autor depois de encontrar um livro aberto numa biblioteca de Genebra.
Vale acompanhar o encadeamento com calma, porque cada degrau depende do anterior e o resultado incomoda quem espera uma tese sobre gente ruim.
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I A ideia do dia
A conta que sai de forças parecidas
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O capítulo abre por um lugar improvável para quem espera um tratado sobre poder: a semelhança física entre as pessoas. Hobbes afirma que a natureza fez os homens iguais nas faculdades do corpo e do espírito, e trata a afirmação como observação, não como direito.
A prova que ele oferece é desconfortável e definitiva. O mais fraco tem força suficiente para eliminar o mais forte, seja por armadilha, seja por aliança com outros que correm o mesmo risco. A vantagem física de um adulto sobre outro nunca é grande a ponto de sobreviver ao sono.
O corpo dá a primeira igualdade, e a prudência dá a segunda. Prudência, no vocabulário dele, é só experiência acumulada, e o tempo distribui experiência de forma parelha entre quem se dedica às mesmas coisas por igual período.
Da igualdade de faculdades nasce a igualdade de esperança em alcançar os fins. E daí sai o passo que carrega o capítulo inteiro: se duas pessoas desejam a mesma coisa e a coisa não pode ser desfrutada pelas duas, elas se tornam inimigas.
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A inimizade não entra pela porta do caráter. Ela entra pela porta da aritmética: dois desejos iguais, um objeto indivisível, nenhum árbitro acima dos dois.
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A partir desse ponto, o texto identifica três motivos de discórdia na natureza humana, e cada um deles tem um alvo próprio:
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Competição: leva a atacar em busca de ganho, para tomar bens, terras ou pessoas
Desconfiança: leva a atacar em busca de segurança, para não esperar o golpe do outro
Glória: leva a atacar em busca de reputação, por uma palavra, um gesto ou uma opinião sobre parentes e amigos
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O segundo motivo é o mais engenhoso e o menos citado. Quem se antecipa por desconfiança não deseja o mal de ninguém: deseja não estar na posição do que apanha primeiro. E a antecipação de um justifica a antecipação do outro, o que transforma prudência isolada em ameaça generalizada.
Sem um poder comum que mantenha todos em respeito, essa disposição vira o que ele chama de guerra de todos contra todos. E aqui o texto faz uma distinção que quase todo resumo apaga.
Guerra, para Hobbes, não é a batalha. É o período de tempo em que a vontade de disputar está publicamente conhecida, do mesmo modo que o mau tempo não é o aguaceiro de uma tarde, mas a inclinação de vários dias para chuva.
A consequência é que a guerra não exige um cadáver, nem um tiro, nem um grito. Exige apenas que ninguém tenha garantia do contrário. É por isso que o argumento descreve tão bem uma disputa de vaga de garagem, em que ninguém agride ninguém e todos vivem em estado de cálculo permanente.
Nesse período, escreve ele, não há lugar para indústria, porque o fruto do trabalho é incerto. Não há agricultura, navegação, construção, artes, letras nem sociedade. Sobra medo contínuo, e a vida fica solitária, pobre, sórdida, embrutecida e curta.
A lista costuma ser lida como retórica sombria. É contabilidade: cada item cortado da lista é uma atividade que exige investir hoje contando com amanhã, e ninguém investe contra um amanhã que não existe.
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II Quem pensou
O tradutor de Tucídides que fugiu para Paris
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Thomas Hobbes nasceu em 5 de abril de 1588, em Westport, ao lado de Malmesbury, no oeste da Inglaterra. Gostava de repetir que a mãe entrou em trabalho de parto ao saber que a armada espanhola se aproximava, e que o medo e ele nasceram gêmeos.
Aos vinte anos entrou como tutor na família Cavendish, os condes de Devonshire, e ficou ligado a ela pelo resto da vida. O emprego lhe deu três viagens longas pelo continente, uma biblioteca imensa e tempo, que é o insumo raro de quem escreve tratado.
A primeira obra grande dele não foi de filosofia. Foi a tradução da História da Guerra do Peloponeso, publicada em 1629, a primeira feita direto do grego para o inglês. Ele escolheu Tucídides de propósito, por achar que nenhum autor mostrava melhor o estrago que uma assembleia faz quando delibera sobre guerra.
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"A natureza fez os homens tão iguais nas faculdades do corpo e do espírito que, ainda que um homem seja por vezes manifestamente mais forte de corpo ou de espírito mais vivo do que outro, quando se considera tudo em conjunto a diferença entre eles não é suficientemente considerável para que um possa reclamar qualquer benefício que outro não possa também reclamar."
Thomas Hobbes, Leviatã, capítulo 13, 1651.
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A virada de método veio de um acaso famoso. Numa biblioteca, ele encontrou um exemplar aberto dos Elementos de Euclides, leu uma proposição, achou impossível, e foi recuando de demonstração em demonstração até se convencer. Passou a querer para a política aquilo que a geometria tinha: definição no começo, conclusão obrigatória no fim.
O plano ficou pronto na guerra civil inglesa. Em 1640, com o Parlamento se voltando contra a Coroa e um texto seu circulando em favor do poder do rei, ele fez as malas e foi para a França, onde ficou onze anos. Chamava a si mesmo, sem constrangimento, de o primeiro a fugir.
Em Paris deu aulas de matemática ao príncipe de Gales, o futuro Carlos II, e escreveu o Leviatã. O livro saiu em Londres em 1651, com um frontispício que virou a imagem mais reproduzida da história da filosofia política: um gigante coroado cujo corpo inteiro é feito de pessoas pequenas, viradas para dentro, olhando para a cabeça.
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O gigante não paira acima da multidão nem foi enviado do céu. Ele é a multidão, montada por consentimento, e a única coisa que a mantém montada é a lembrança do que havia antes.
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Do outro lado, o clero acusou o livro de materialismo e de heresia. Em 1666, uma comissão da Câmara dos Comuns incluiu o Leviatã num inquérito sobre ateísmo e profanação, e ele queimou parte dos próprios papéis por precaução.
Morreu em dezembro de 1679, aos noventa e um anos, ainda traduzindo Homero em verso inglês para se distrair.
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