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ED 021

A igualdade entre os homens é o que produz a guerra

No capítulo 13 do Leviatã, Hobbes deriva o conflito da igualdade de forças e faz o pacto nascer do medo, nunca da bondade.

O frontispício do Leviatã, com o gigante coroado formado por centenas de corpos humanos.

O gigante do Leviatã, feito de gente miúda

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Um prédio de dez andares tem uma vaga de garagem sobrando e dois moradores que chegam do trabalho no mesmo horário. Nenhum dos dois é ladrão, nenhum dos dois quer prejudicar ninguém, e os dois cumprimentam o porteiro pelo nome todas as manhãs.

Ainda assim, a vaga vira assunto de assembleia. Depois vira bilhete na porta. Depois vira o carro estacionado quinze minutos antes só para garantir, o que obriga o outro a estacionar vinte minutos antes, o que obriga o primeiro a sair de casa mais cedo ainda.

Ninguém ali ficou pior de caráter no meio do processo. O que aconteceu é que dois desejos iguais encontraram uma coisa que não se divide, e cada um dos dois calculou o que o outro faria.

A leitura popular do inglês que escreveu o Leviatã diz outra coisa. Diz que ele achava o ser humano mau, lobo do próprio semelhante, movido por crueldade, e que o Estado existe para segurar essa maldade pela coleira. A frase do lobo nem está no Leviatã, e a palavra maldade não faz trabalho nenhum no argumento.

A ideia do dia é que o conflito, no capítulo 13, é deduzido da igualdade. Não da inveja, não da perversidade, não de uma natureza corrompida. De uma constatação seca sobre forças parecidas demais para que alguém possa relaxar.

E é a mesma igualdade que produz a saída. Um ser humano forte o bastante para dominar todos os outros nunca teria motivo para assinar coisa alguma. O pacto só é pensável entre iguais assustados, cada um sabendo que a própria força não cobre a distância entre acordar e dormir.

O argumento tem quatro páginas, não tem exemplo histórico e não tem exortação moral. Ele funciona como uma peça de geometria, que era exatamente a ambição do autor depois de encontrar um livro aberto numa biblioteca de Genebra.

Vale acompanhar o encadeamento com calma, porque cada degrau depende do anterior e o resultado incomoda quem espera uma tese sobre gente ruim.

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I  A ideia do dia

A conta que sai de forças parecidas

O capítulo abre por um lugar improvável para quem espera um tratado sobre poder: a semelhança física entre as pessoas. Hobbes afirma que a natureza fez os homens iguais nas faculdades do corpo e do espírito, e trata a afirmação como observação, não como direito.

A prova que ele oferece é desconfortável e definitiva. O mais fraco tem força suficiente para eliminar o mais forte, seja por armadilha, seja por aliança com outros que correm o mesmo risco. A vantagem física de um adulto sobre outro nunca é grande a ponto de sobreviver ao sono.

O corpo dá a primeira igualdade, e a prudência dá a segunda. Prudência, no vocabulário dele, é só experiência acumulada, e o tempo distribui experiência de forma parelha entre quem se dedica às mesmas coisas por igual período.

Da igualdade de faculdades nasce a igualdade de esperança em alcançar os fins. E daí sai o passo que carrega o capítulo inteiro: se duas pessoas desejam a mesma coisa e a coisa não pode ser desfrutada pelas duas, elas se tornam inimigas.

A inimizade não entra pela porta do caráter. Ela entra pela porta da aritmética: dois desejos iguais, um objeto indivisível, nenhum árbitro acima dos dois.

A partir desse ponto, o texto identifica três motivos de discórdia na natureza humana, e cada um deles tem um alvo próprio:

Competição: leva a atacar em busca de ganho, para tomar bens, terras ou pessoas

Desconfiança: leva a atacar em busca de segurança, para não esperar o golpe do outro

Glória: leva a atacar em busca de reputação, por uma palavra, um gesto ou uma opinião sobre parentes e amigos

O segundo motivo é o mais engenhoso e o menos citado. Quem se antecipa por desconfiança não deseja o mal de ninguém: deseja não estar na posição do que apanha primeiro. E a antecipação de um justifica a antecipação do outro, o que transforma prudência isolada em ameaça generalizada.

Sem um poder comum que mantenha todos em respeito, essa disposição vira o que ele chama de guerra de todos contra todos. E aqui o texto faz uma distinção que quase todo resumo apaga.

Guerra, para Hobbes, não é a batalha. É o período de tempo em que a vontade de disputar está publicamente conhecida, do mesmo modo que o mau tempo não é o aguaceiro de uma tarde, mas a inclinação de vários dias para chuva.

A consequência é que a guerra não exige um cadáver, nem um tiro, nem um grito. Exige apenas que ninguém tenha garantia do contrário. É por isso que o argumento descreve tão bem uma disputa de vaga de garagem, em que ninguém agride ninguém e todos vivem em estado de cálculo permanente.

Nesse período, escreve ele, não há lugar para indústria, porque o fruto do trabalho é incerto. Não há agricultura, navegação, construção, artes, letras nem sociedade. Sobra medo contínuo, e a vida fica solitária, pobre, sórdida, embrutecida e curta.

A lista costuma ser lida como retórica sombria. É contabilidade: cada item cortado da lista é uma atividade que exige investir hoje contando com amanhã, e ninguém investe contra um amanhã que não existe.

 
 

II  Quem pensou

O tradutor de Tucídides que fugiu para Paris

Thomas Hobbes nasceu em 5 de abril de 1588, em Westport, ao lado de Malmesbury, no oeste da Inglaterra. Gostava de repetir que a mãe entrou em trabalho de parto ao saber que a armada espanhola se aproximava, e que o medo e ele nasceram gêmeos.

Aos vinte anos entrou como tutor na família Cavendish, os condes de Devonshire, e ficou ligado a ela pelo resto da vida. O emprego lhe deu três viagens longas pelo continente, uma biblioteca imensa e tempo, que é o insumo raro de quem escreve tratado.

A primeira obra grande dele não foi de filosofia. Foi a tradução da História da Guerra do Peloponeso, publicada em 1629, a primeira feita direto do grego para o inglês. Ele escolheu Tucídides de propósito, por achar que nenhum autor mostrava melhor o estrago que uma assembleia faz quando delibera sobre guerra.

"A natureza fez os homens tão iguais nas faculdades do corpo e do espírito que, ainda que um homem seja por vezes manifestamente mais forte de corpo ou de espírito mais vivo do que outro, quando se considera tudo em conjunto a diferença entre eles não é suficientemente considerável para que um possa reclamar qualquer benefício que outro não possa também reclamar."

Thomas Hobbes, Leviatã, capítulo 13, 1651.

A virada de método veio de um acaso famoso. Numa biblioteca, ele encontrou um exemplar aberto dos Elementos de Euclides, leu uma proposição, achou impossível, e foi recuando de demonstração em demonstração até se convencer. Passou a querer para a política aquilo que a geometria tinha: definição no começo, conclusão obrigatória no fim.

O plano ficou pronto na guerra civil inglesa. Em 1640, com o Parlamento se voltando contra a Coroa e um texto seu circulando em favor do poder do rei, ele fez as malas e foi para a França, onde ficou onze anos. Chamava a si mesmo, sem constrangimento, de o primeiro a fugir.

Em Paris deu aulas de matemática ao príncipe de Gales, o futuro Carlos II, e escreveu o Leviatã. O livro saiu em Londres em 1651, com um frontispício que virou a imagem mais reproduzida da história da filosofia política: um gigante coroado cujo corpo inteiro é feito de pessoas pequenas, viradas para dentro, olhando para a cabeça.

O gigante não paira acima da multidão nem foi enviado do céu. Ele é a multidão, montada por consentimento, e a única coisa que a mantém montada é a lembrança do que havia antes.

Do outro lado, o clero acusou o livro de materialismo e de heresia. Em 1666, uma comissão da Câmara dos Comuns incluiu o Leviatã num inquérito sobre ateísmo e profanação, e ele queimou parte dos próprios papéis por precaução.

Morreu em dezembro de 1679, aos noventa e um anos, ainda traduzindo Homero em verso inglês para se distrair.

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III  Contra o quê

Contra o animal político de Aristóteles

O alvo declarado do capítulo é uma tese de dois mil anos. Aristóteles abre a Política dizendo que o ser humano é por natureza um animal político, feito para viver em comunidade, e que quem vive fora dela é besta ou deus.

A tradição inteira que veio depois trabalhou em cima dessa base. Havia um apetite natural de sociedade, um instinto de companhia que explicava a cidade como florescimento de algo já presente na semente humana.

Hobbes recusa a semente. Numa nota da segunda edição do De Cive, em 1647, ele responde em duas linhas: o homem não nasce apto para a sociedade, e a maioria dos que buscam companhia busca honra ou proveito, não a companhia em si.

Uma sociedade construída por interesse é uma sociedade que pode se desfazer quando o interesse muda de lado. Por isso o vínculo precisa de artifício, e artifício quer dizer coisa fabricada: um poder comum instituído por contrato, com espada, e não uma inclinação que já viesse de fábrica.

A objeção mais repetida contra ele veio na hora e continua vindo. Nunca existiu um tempo assim, com todos contra todos e nenhuma autoridade. A história não registra esse período em lugar nenhum do planeta.

A resposta dele tem três degraus, e o terceiro é o que interessa. O primeiro aponta para povos que ele conhecia por relatos das Américas, vivendo sem governo central em pequenos grupos familiares. O segundo aponta para os reis e as repúblicas do próprio século, que vivem em postura de gladiadores, armas apontadas e olhos fixos uns nos outros, sem tribunal acima deles.

O terceiro degrau dispensa antropologia. Ele pede que o leitor observe o que faz quando vai dormir, quando viaja, quando guarda dinheiro, e pergunta que opinião essas ações revelam sobre os semelhantes.

Uma crítica de outro tipo chegou um século depois. Rousseau, no Discurso sobre a origem da desigualdade, de 1755, acusou Hobbes de projetar no estado de natureza um sujeito que já é produto da vida social: competitivo, comparador, ávido por reputação. O homem natural de Rousseau é tímido e solitário, e a guerra começa com a propriedade, não antes dela.

Ninguém sai de casa acreditando que o vizinho é um criminoso. Sai trancando a porta duas vezes, guardando a chave reserva com um parente e conferindo pela janela quem tocou a campainha às onze da noite.

"Quantas trancas você girou hoje na porta de gente que considera boa?"

 
 
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ACompetição
BDesconfiança
CGlória
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