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O Dicionário Houaiss registra infinito como aquilo que não tem fim nem limite, e trata a palavra como uma medida que falta. Anaximandro de Mileto, no século VI a.C., mostra onde a definição falha: para ele, o sem limite era a origem de tudo, e tinha força suficiente para cobrar dívidas.
A palavra grega que ele usou foi ápeiron (literalmente, o que não tem fronteira). Ela junta o prefixo de negação a péras, termo que designava a borda, o marco, a linha onde algo acaba. O ápeiron é o que nenhuma borda contém.
Mileto era então a cidade mais rica da Jônia, a costa grega da atual Turquia. Tinha porto, colônias no Mar Negro e contato comercial com o Egito e a Mesopotâmia. Foi nessa cidade que três homens seguidos, Tales, Anaximandro e Anaxímenes, tentaram explicar a natureza sem recorrer a histórias de deuses. Os três ficaram conhecidos como a escola de Mileto, embora nenhum deles tenha fundado escola alguma.
Anaximandro escreveu um livro, talvez o primeiro livro em prosa sobre a natureza que os gregos produziram. Autores tardios o chamam de Sobre a natureza, mas o título pode ter sido dado por eles. O livro circulou até a época de Aristóteles e depois sumiu das bibliotecas.
Sobrou uma frase. Ela chegou por uma corrente de três elos: Teofrasto, aluno de Aristóteles, resumiu as opiniões dos antigos no século IV a.C.; mil anos depois, Simplício, comentador de Aristóteles, copiou o resumo de Teofrasto; os manuscritos de Simplício atravessaram a Idade Média em Bizâncio.
Essa frase única fala de tribunal, pena e prazo. Os estudiosos discutem até hoje quantas palavras dela são de Anaximandro e quantas são de Teofrasto. Ninguém discute que ela é o texto mais antigo da filosofia ocidental que chegou com a sintaxe do autor.
A seção seguinte abre a frase palavra por palavra.
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I A ideia do dia
Um tribunal sem juiz
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Na tradução mais comum para o português, o fragmento de Anaximandro diz: de onde os seres nascem, para lá também se desfazem, segundo a necessidade; pois pagam uns aos outros pena e reparação pela injustiça, segundo a ordem do tempo.
Simplício apresenta a frase dizendo que Anaximandro falou do assunto em termos poéticos. O comentador reparou no vocabulário: díke (justiça, a sentença do tribunal), adikía (injustiça, o dano causado a outro) e tísis (a reparação paga pela parte culpada). São palavras de processo judicial, usadas para descrever o céu e a terra.
A leitura mais aceita entre os especialistas é a dos opostos. O quente avança sobre o frio no verão e comete injustiça ao ocupar o terreno alheio. No inverno, o frio cobra a dívida e avança de volta. O seco e o úmido, o dia e a noite, fazem o mesmo jogo de avanço e devolução.
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Nenhum oposto vence para sempre, porque o tempo obriga cada um a devolver o que tomou.
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Não existe juiz no fragmento. Quem organiza os pagamentos é o próprio tempo, e a expressão grega katà tèn toû chrónou táxin (segundo a ordem do tempo) usa táxis, a palavra para a fila de soldados e para o calendário de parcelas. O cosmos, nessa imagem, tem prazo de pagamento.
Antes de Mileto, poetas como Hesíodo, na Teogonia, explicavam a ordem do mundo por brigas de família entre deuses. Anaximandro trocou a genealogia pela lei. As forças do mundo não obedecem a um pai divino, obedecem a um regulamento que vale para todas.
o ciclo descrito no fragmento
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Os seres se separam do ápeiron como pares de opostos
Cada oposto avança sobre o outro e comete injustiça
O tempo impõe a reparação, e o que avançou recua
Tudo o que se separou volta, no fim, para a origem sem limite
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Resta o ápeiron. Aristóteles, no livro III da Física, resume o argumento que Anaximandro teria usado. Se o princípio de tudo fosse um dos opostos, como a água, ele seria infinito e já teria engolido os outros. O fogo nunca existiria num mundo feito de água sem limite.
Daí a exigência: o princípio precisa ficar fora da disputa. O ápeiron não é quente nem frio, nem úmido nem seco. Não envelhece e não se esgota, e os autores antigos dizem que Anaximandro o chamava de imortal e indestrutível, palavras que o grego reservava para os deuses.
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II Quem pensou
O homem que desenhou a terra
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Anaximandro de Mileto nasceu por volta de 610 a.C. Diógenes Laércio, biógrafo do século III d.C., registra a informação do cronologista Apolodoro: no segundo ano da 58ª Olimpíada, entre 547 e 546 a.C., ele tinha 64 anos. A data da morte ficou perdida com os registros da cidade.
A tradição o faz discípulo ou companheiro de Tales, o primeiro milésio a propor um princípio único para a natureza. Tales dizia que tudo vinha da água. Anaximandro aprendeu com ele a pergunta e recusou a resposta.
Ele não ficou só na teoria. Agatêmero, geógrafo grego, afirma que Anaximandro foi o primeiro a desenhar num quadro o mapa da terra habitada. O mapa se perdeu, mas Hecateu, também de Mileto, o revisou uma geração depois, e Heródoto zomba dos mapas jônios que desenhavam o mundo redondo como se feito a compasso.
Diógenes Laércio também atribui a ele a introdução do gnômon (a haste vertical do relógio de sol) entre os gregos. Os babilônios já usavam o instrumento, e Anaximandro provavelmente o trouxe de lá. Com a sombra da haste se marcavam os solstícios e os equinócios.
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A primeira cosmologia grega sem deuses saiu da cabeça de um homem que media sombras e desenhava mapas.
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A terra de Anaximandro tem forma de cilindro, como um tambor de coluna, com altura igual a um terço da largura. Os homens vivem na face de cima. Ela flutua no centro de tudo, sem apoio.
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"Há quem diga que ela permanece no lugar por causa da semelhança, como Anaximandro entre os antigos."
Aristóteles, Sobre o céu, livro II, c. 350 a.C.
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O raciocínio é de simetria: a terra fica igualmente distante de todas as bordas do céu, e nada a empurra para um lado mais que para outro. Tales precisava de água embaixo da terra para segurá-la. Anaximandro dispensou o suporte.
O céu dele é feito de rodas de fogo envolvidas por névoa. O sol, a lua e as estrelas são furos nessas rodas, por onde o fogo aparece. Um eclipse acontece quando o furo se fecha. A roda do sol, segundo os relatos antigos, mede 27 ou 28 vezes o tamanho da terra.
Sobre a vida, ele propôs que os primeiros animais nasceram no úmido, cobertos de cascas espinhosas. Censorino, gramático romano do século III d.C., relata que para Anaximandro os primeiros homens se formaram dentro de criaturas parecidas com peixes e só saíram delas quando já podiam se sustentar.
Cada uma dessas teses estava errada nos detalhes. Todas tinham o mesmo método: explicar o mundo por causas que se podem discutir, sem apelar a vontades divinas.
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