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ED 051
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A dívida que o mundo paga ao tempo

De um livro inteiro de Anaximandro sobrou uma frase: os seres pagam pena uns aos outros segundo a ordem do tempo.

Um relógio de sol de pedra projetando a sombra da haste sobre as marcas das horas.

A sombra do gnômon marca a hora e a estação

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O Dicionário Houaiss registra infinito como aquilo que não tem fim nem limite, e trata a palavra como uma medida que falta. Anaximandro de Mileto, no século VI a.C., mostra onde a definição falha: para ele, o sem limite era a origem de tudo, e tinha força suficiente para cobrar dívidas.

A palavra grega que ele usou foi ápeiron (literalmente, o que não tem fronteira). Ela junta o prefixo de negação a péras, termo que designava a borda, o marco, a linha onde algo acaba. O ápeiron é o que nenhuma borda contém.

Mileto era então a cidade mais rica da Jônia, a costa grega da atual Turquia. Tinha porto, colônias no Mar Negro e contato comercial com o Egito e a Mesopotâmia. Foi nessa cidade que três homens seguidos, Tales, Anaximandro e Anaxímenes, tentaram explicar a natureza sem recorrer a histórias de deuses. Os três ficaram conhecidos como a escola de Mileto, embora nenhum deles tenha fundado escola alguma.

Anaximandro escreveu um livro, talvez o primeiro livro em prosa sobre a natureza que os gregos produziram. Autores tardios o chamam de Sobre a natureza, mas o título pode ter sido dado por eles. O livro circulou até a época de Aristóteles e depois sumiu das bibliotecas.

Sobrou uma frase. Ela chegou por uma corrente de três elos: Teofrasto, aluno de Aristóteles, resumiu as opiniões dos antigos no século IV a.C.; mil anos depois, Simplício, comentador de Aristóteles, copiou o resumo de Teofrasto; os manuscritos de Simplício atravessaram a Idade Média em Bizâncio.

Essa frase única fala de tribunal, pena e prazo. Os estudiosos discutem até hoje quantas palavras dela são de Anaximandro e quantas são de Teofrasto. Ninguém discute que ela é o texto mais antigo da filosofia ocidental que chegou com a sintaxe do autor.

A seção seguinte abre a frase palavra por palavra.

Continue lendo ↓

 
 

I  A ideia do dia

Um tribunal sem juiz

Na tradução mais comum para o português, o fragmento de Anaximandro diz: de onde os seres nascem, para lá também se desfazem, segundo a necessidade; pois pagam uns aos outros pena e reparação pela injustiça, segundo a ordem do tempo.

Simplício apresenta a frase dizendo que Anaximandro falou do assunto em termos poéticos. O comentador reparou no vocabulário: díke (justiça, a sentença do tribunal), adikía (injustiça, o dano causado a outro) e tísis (a reparação paga pela parte culpada). São palavras de processo judicial, usadas para descrever o céu e a terra.

A leitura mais aceita entre os especialistas é a dos opostos. O quente avança sobre o frio no verão e comete injustiça ao ocupar o terreno alheio. No inverno, o frio cobra a dívida e avança de volta. O seco e o úmido, o dia e a noite, fazem o mesmo jogo de avanço e devolução.

Nenhum oposto vence para sempre, porque o tempo obriga cada um a devolver o que tomou.

Não existe juiz no fragmento. Quem organiza os pagamentos é o próprio tempo, e a expressão grega katà tèn toû chrónou táxin (segundo a ordem do tempo) usa táxis, a palavra para a fila de soldados e para o calendário de parcelas. O cosmos, nessa imagem, tem prazo de pagamento.

Antes de Mileto, poetas como Hesíodo, na Teogonia, explicavam a ordem do mundo por brigas de família entre deuses. Anaximandro trocou a genealogia pela lei. As forças do mundo não obedecem a um pai divino, obedecem a um regulamento que vale para todas.

o ciclo descrito no fragmento

Os seres se separam do ápeiron como pares de opostos

Cada oposto avança sobre o outro e comete injustiça

O tempo impõe a reparação, e o que avançou recua

Tudo o que se separou volta, no fim, para a origem sem limite

Resta o ápeiron. Aristóteles, no livro III da Física, resume o argumento que Anaximandro teria usado. Se o princípio de tudo fosse um dos opostos, como a água, ele seria infinito e já teria engolido os outros. O fogo nunca existiria num mundo feito de água sem limite.

Daí a exigência: o princípio precisa ficar fora da disputa. O ápeiron não é quente nem frio, nem úmido nem seco. Não envelhece e não se esgota, e os autores antigos dizem que Anaximandro o chamava de imortal e indestrutível, palavras que o grego reservava para os deuses.

 
 

II  Quem pensou

O homem que desenhou a terra

Anaximandro de Mileto nasceu por volta de 610 a.C. Diógenes Laércio, biógrafo do século III d.C., registra a informação do cronologista Apolodoro: no segundo ano da 58ª Olimpíada, entre 547 e 546 a.C., ele tinha 64 anos. A data da morte ficou perdida com os registros da cidade.

A tradição o faz discípulo ou companheiro de Tales, o primeiro milésio a propor um princípio único para a natureza. Tales dizia que tudo vinha da água. Anaximandro aprendeu com ele a pergunta e recusou a resposta.

Ele não ficou só na teoria. Agatêmero, geógrafo grego, afirma que Anaximandro foi o primeiro a desenhar num quadro o mapa da terra habitada. O mapa se perdeu, mas Hecateu, também de Mileto, o revisou uma geração depois, e Heródoto zomba dos mapas jônios que desenhavam o mundo redondo como se feito a compasso.

Diógenes Laércio também atribui a ele a introdução do gnômon (a haste vertical do relógio de sol) entre os gregos. Os babilônios já usavam o instrumento, e Anaximandro provavelmente o trouxe de lá. Com a sombra da haste se marcavam os solstícios e os equinócios.

A primeira cosmologia grega sem deuses saiu da cabeça de um homem que media sombras e desenhava mapas.

A terra de Anaximandro tem forma de cilindro, como um tambor de coluna, com altura igual a um terço da largura. Os homens vivem na face de cima. Ela flutua no centro de tudo, sem apoio.

"Há quem diga que ela permanece no lugar por causa da semelhança, como Anaximandro entre os antigos."

Aristóteles, Sobre o céu, livro II, c. 350 a.C.

O raciocínio é de simetria: a terra fica igualmente distante de todas as bordas do céu, e nada a empurra para um lado mais que para outro. Tales precisava de água embaixo da terra para segurá-la. Anaximandro dispensou o suporte.

O céu dele é feito de rodas de fogo envolvidas por névoa. O sol, a lua e as estrelas são furos nessas rodas, por onde o fogo aparece. Um eclipse acontece quando o furo se fecha. A roda do sol, segundo os relatos antigos, mede 27 ou 28 vezes o tamanho da terra.

Sobre a vida, ele propôs que os primeiros animais nasceram no úmido, cobertos de cascas espinhosas. Censorino, gramático romano do século III d.C., relata que para Anaximandro os primeiros homens se formaram dentro de criaturas parecidas com peixes e só saíram delas quando já podiam se sustentar.

Cada uma dessas teses estava errada nos detalhes. Todas tinham o mesmo método: explicar o mundo por causas que se podem discutir, sem apelar a vontades divinas.

 

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III  Contra o quê

A água de Tales e os deuses de Hesíodo

O alvo mais próximo de Anaximandro era o mestre. Tales tinha escolhido a água como arché (o princípio, aquilo de onde tudo vem), e a escolha parecia boa: a água vira gelo, vira vapor, alimenta as sementes.

Anaximandro viu o problema lógico. Um elemento com qualidades próprias não pode gerar o seu contrário sem deixar de ser ele mesmo. Se tudo é água, o fogo é uma anomalia inexplicável. O princípio precisava ser neutro, e o único candidato neutro era o que não tinha qualidade nenhuma.

O segundo alvo era mais antigo e mais poderoso. A Teogonia de Hesíodo, composta por volta de 700 a.C., contava a origem do mundo como sucessão de reis divinos: Urano derrubado por Cronos, Cronos derrubado por Zeus. A ordem vinha da vitória do mais forte.

No fragmento de Anaximandro nenhuma vitória é definitiva. O que avança paga. A justiça do cosmos funciona como a justiça da cidade grega, com dano, sentença e reparação, e vale para todos os lados.

Anaximandro trocou o mais forte pelo que deve.

A troca teve herdeiros. Heráclito de Éfeso, meio século depois, escreveu que a guerra é comum a todos e que a justiça é discórdia. Parmênides, em Eleia, levou a ideia de limite ao extremo oposto e fez do ser algo fechado por correntes, sem espaço para o sem limite.

Os modernos também voltaram ao fragmento. Friedrich Nietzsche, em A filosofia na era trágica dos gregos, texto de 1873, leu a frase como uma sentença contra a própria existência: tudo o que nasce já deve. Martin Heidegger dedicou ao fragmento o ensaio O dito de Anaximandro, de 1946, e propôs uma tradução que quase não lembra as outras.

Charles Kahn, no livro Anaximander and the Origins of Greek Cosmology (Anaximandro e as origens da cosmologia grega), de 1960, fez o trabalho mais minucioso. Kahn defendeu que a segunda metade da frase, a do tribunal, é de Anaximandro, e que a primeira, a da origem e da destruição, pode ser paráfrase de Teofrasto.

A dúvida não tem solução à vista. O livro desapareceu, e cada cópia da frase passou pelas mãos de um leitor que já tinha a sua própria filosofia. Nenhum manuscrito anterior a Simplício sobreviveu para servir de comparação.

Em Porto Alegre, a noite de 21 de junho dura quase catorze horas. Em 21 de dezembro, o dia devolve cada minuto e fica com quase catorze horas de claridade. O calendário da prefeitura registra os dois números, um ao lado do outro.

"Qual das suas vitórias de hoje está só esperando a vez de ser devolvida?"

A frase tem pouco mais de trinta palavras.

 
 
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Que forma Anaximandro atribuiu à Terra, no lugar do apoio de água que Tales imaginava?

AUma esfera perfeita, sustentada pelo éter
BUm disco plano, apoiado sobre uma coluna de água
CUm cilindro, com altura igual a um terço da largura, flutuando sem apoio
DUm cubo, com os homens vivendo numa das seis faces

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