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A consciência de si não passa pelos sentidos
Avicena sustenta que quem não vê, não toca e não sente o próprio corpo continua afirmando que existe, e que essa afirmação vem antes de tudo.
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Um corpo suspenso, sem nada para tocar
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Quase tudo o que uma pessoa sabe entrou por uma porta. A cor pela vista, o peso pela mão, a temperatura pela pele, o próprio contorno do corpo por uma soma constante de sinais que chegam sem que ninguém peça.
A tradição que dominava as escolas de filosofia por mais de mil anos tratava essa entrada como a única disponível. Nada estaria no intelecto sem ter passado antes por um sentido, e todo conhecimento seria, no fim da conta, um material bruto colhido fora e depois trabalhado dentro.
A ideia do dia é que existe uma afirmação que não entrou por porta nenhuma. A afirmação de que eu existo não foi colhida, não foi inferida de nenhum dado e não depende de nenhum órgão em funcionamento.
A distinção que sustenta o argumento é entre saber por inferência e saber por presença. Saber por inferência é chegar a uma conclusão a partir de outra coisa: o chão molhado leva à chuva, a fumaça leva ao fogo, a imagem no espelho leva ao rosto.
Saber por presença é diferente. Não há intermediário, não há passo intermediário a conferir, e não existe a possibilidade de estar certo sobre a premissa e errado sobre a conclusão, porque não há premissa alguma.
O modo de testar qual dos dois casos vale para a existência de si mesmo é subtrair. Retire a visão e veja se a afirmação continua. Retire o tato, o som, o cheiro, o gosto. Retire a sensação de peso, a pressão do chão sob os pés, a percepção interna dos membros.
Se em algum ponto da subtração a afirmação cair junto, ela dependia daquele sentido e era inferida. Se ela atravessar a subtração inteira intacta, ela nunca dependeu de nenhum deles, e a doutrina que fazia todo conhecimento entrar por uma porta tem uma exceção no meio de si.
Um médico e filósofo persa do século 11 montou essa subtração dentro de um tratado enorme de lógica, física e metafísica, e a montou de um jeito que atravessou mil anos sem perder força.
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I A ideia do dia
O que sobra quando nada chega
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Imagine uma pessoa criada adulta neste exato instante, completa e perfeita, sem nunca ter visto nada nem tocado em nada. Ela está suspensa no ar, em queda livre por um espaço sem resistência.
Os olhos vêm cobertos. O ar não roça a pele, os membros estão afastados uns dos outros e não se tocam, e nenhum som chega. A pessoa nunca teve infância, nunca aprendeu palavra nenhuma, nunca formou uma imagem do próprio rosto.
O que foi retirado da cena, item por item:
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Visão: nenhuma imagem, nem do próprio corpo
Tato e pressão: nada roça, nada resiste
Som, cheiro e gosto: nenhum dado externo
Sensação dos membros: nem os braços encostam no tronco
Memória: nenhuma experiência anterior guardada
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Depois de tirar tudo, o argumento pergunta uma coisa só: essa pessoa afirmaria a própria existência? E a resposta do texto é que sim, sem hesitar.
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Ela não afirmaria ter braços, porque nada lhe deu notícia de braços. Não afirmaria ter cabeça, nem coração, nem contorno. Não teria como saber sequer que existe um mundo fora dela, já que nenhuma borda se apresentou.
Mas afirmaria que existe. E a afirmação não seria uma conclusão a que ela chega depois de examinar indícios, porque indício nenhum lhe foi entregue para examinar.
Daí a conclusão que interessa. Aquilo que é afirmado sem nenhum dado dos sentidos não pode ser a mesma coisa que aquilo que só se conhece por eles. O corpo entra na conta pela porta dos sentidos, e o que se afirma sem os sentidos é de outra ordem.
O texto trata a consciência de si como um dado primeiro, não como um resultado. Ela não é montada peça a peça a partir de sensações, não amadurece, não é aprendida, e não some quando as sensações somem.
O detalhe técnico que o argumento explora é a diferença entre estar presente a si e representar a si. Uma representação exige um instrumento que capture o objeto e devolva uma imagem dele, e todo instrumento pode falhar ou faltar.
A presença não usa instrumento. Quem está presente a si mesmo não olha para si de fora, não colhe uma imagem, não compara com nada. Está ali, e a ausência de intermediário é justamente o que torna a afirmação impossível de perder.
O argumento também resolve uma objeção antes que ela chegue. Alguém poderia dizer que a pessoa suspensa sente ao menos o próprio pensamento acontecendo, e que esse seria o dado colhido. A resposta do texto é que sentir o pensamento já é a própria presença a si, e não uma percepção a mais.
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II Quem pensou
O médico de Bucara que escrevia de noite
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Um menino que decorou o Alcorão inteiro aos dez anos virou médico da corte aos dezessete e escreveu, entre uma consulta e outra, o tratado que ensinou medicina à Europa por seiscentos anos.
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Ibn Sina nasceu por volta de 980 perto de Bucara, hoje território do Uzbequistão, e morreu em 1037 em Hamadã, no oeste do Irã. A Europa latina o chamaria de Avicena, e sob esse nome ele se tornou autoridade obrigatória nas universidades por séculos.
A formação foi anômala até para a época. Ele conta em uma autobiografia ditada a um discípulo que aprendeu lógica com um professor e logo passou a corrigi-lo, que estudou medicina sozinho e achou fácil, e que travou por muito tempo na Metafísica de Aristóteles.
Foram quarenta leituras do mesmo texto sem entender. O destravamento veio quando comprou por acaso, numa banca, um comentário curto de al-Farabi, e a estrutura inteira se abriu de uma vez.
O tratado onde o argumento aparece se chama Livro da Cura. O nome não fala de doença do corpo: a cura oferecida é da ignorância, e o livro cobre lógica, matemática, música, física, psicologia e metafísica num único bloco.
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"Se imaginarmos que um de nós foi criado de uma vez e criado perfeito, mas com a visão velada e sem tocar nada, e que os membros estejam separados de modo a não se encontrarem, então ele afirmaria a existência do seu si mesmo, mesmo sem afirmar nada dos membros."
Avicena, Livro da Cura, tratado sobre a alma, século 11.
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A vida dele não foi de estudo tranquilo. Serviu a governantes que caíam, fugiu disfarçado mais de uma vez, foi preso em uma fortaleza e escreveu ali dentro alguns dos textos mais densos que deixou.
O método de trabalho virou lenda entre os discípulos. Passava o dia em obrigações de corte e de medicina, escrevia à noite, e o discípulo al-Juzjani registra que capítulos inteiros foram ditados de memória, sem consulta, quando os livros ficaram para trás numa fuga.
O argumento do homem suspenso não aparece uma vez só. Ele volta em outro ponto do mesmo tratado e reaparece em uma obra tardia, as Indicações e Advertências, sinal de que Avicena o considerava peça estrutural e não ilustração de passagem.
O lugar dele no sistema é o de fundação da psicologia. Antes de discutir percepção, imaginação, memória ou intelecto, Avicena precisa estabelecer que existe um sujeito dessas operações que não se reduz ao corpo que as executa, e o homem suspenso é o que estabelece.
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