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Saber tudo sobre a cor e nunca ter visto uma parece impossível até alguém montar o quarto certo.
O quarto de Mary não foi a primeira tentativa de isolar o problema. Em 1925, o filósofo britânico C. D. Broad imaginou um arcanjo matemático capaz de deduzir a estrutura microscópica de qualquer substância só de olhar para ela.
Diante da amônia, o arcanjo calcularia cada ligação e cada ângulo da molécula. Mesmo assim, escreveu Broad, ele não teria como prever o cheiro que a amônia produz ao entrar num nariz humano.
Em 1974, Thomas Nagel trocou a amônia por um morcego. Um zoólogo descreve a ecolocalização inteira, do pulso ultrassônico ao mapa que o animal monta no escuro, e continua sem acesso ao que é ser um morcego pendurado numa caverna.
As duas versões carregam o mesmo defeito de fábrica. O arcanjo é sobrenatural, o morcego é de outra espécie, e sempre sobra a desculpa de que a distância vem da diferença de corpo, não de um buraco no mapa físico.
A montagem de 1982 corrige o defeito. Mary é humana, tem o mesmo aparelho visual de qualquer leitor e nunca sofreu lesão nenhuma. O que separa Mary do vermelho é a tinta do quarto onde ela cresceu.
Preto, branco e cinza em cada parede, em cada objeto e nas próprias mãos, cobertas por luvas escuras. A única janela para o mundo é um monitor em preto e branco.
Dentro do quarto ela vira a maior especialista viva em neurofisiologia da visão. Sabe quais comprimentos de onda a casca de um tomate reflete e como os três tipos de cone da retina repartem o espectro.
Sabe o caminho do sinal pelo nervo óptico até a área V4 do córtex, sabe qual palavra sai da boca de uma pessoa diante de um morango e sabe qual grupo de neurônios dispara enquanto a palavra sai.
A lista dela é completa por definição. Não falta um fato físico, um número, uma equação nem um artigo publicado. Se o mundo é feito só de matéria em movimento, Mary carrega o mundo inteiro na cabeça enquanto olha para uma parede cinza.
Um dia a porta abre e alguém coloca um tomate maduro na mão dela. O argumento cabe em três linhas: Mary sabia todos os fatos físicos da visão de cores, ao sair ela aprende alguma coisa nova, logo existem fatos que não são físicos.
O nome técnico da coisa aprendida é qualia. O vermelho do vermelho, o amargo do café, a pontada do dedo batido na quina do móvel, o lado de dentro da experiência.
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A lista de todos os fatos físicos pode estar completa e ainda não conter o primeiro segundo de vermelho.
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A força da montagem está nas saídas que ela fecha. Quem quer manter o mundo inteiramente físico escolhe entre três caminhos, e nenhum é confortável: negar que Mary saiba tudo antes de sair, negar que ela aprenda ao sair, ou aceitar que ela aprende sem receber fato nenhum.
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