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A balança que o cético não deixa pender
Sexto Empírico ensinava a opor a cada argumento outro de força igual, até parar de decidir.
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Dois pratos com o mesmo peso não pendem
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O Dicionário Houaiss define cético como "que duvida de tudo, que não acredita em nada". A definição descreve um descrente, e o cético grego que deixou a obra mais completa sobre o assunto, Sexto Empírico, recusaria as duas metades dela.
A palavra vem do grego skeptikós, que significava o que examina, o que olha com atenção. Nas primeiras linhas do seu livro, Sexto explica que o cético recebeu esse nome porque continua procurando. Quem duvida de tudo já encerrou a busca com uma certeza negativa. O cético, na conta dele, segue investigando.
O livro se chama Hipotiposes Pirrônicas (esboços, ou linhas gerais, da escola de Pirro) e foi escrito em grego no século II d.C. É um manual em três livros. O primeiro expõe o método; os outros dois aplicam o método à lógica, à física e à ética dos filósofos da época.
Um dos exemplos mais estranhos do manual vem de Anaxágoras de Clazômenas, filósofo do século V a.C. A neve parece branca a qualquer pessoa que olha para ela. Anaxágoras argumentava que a neve é água congelada, que a água é escura e que, portanto, a neve é negra.
Sexto não registra o raciocínio para zombar dele. Registra para colocá-lo ao lado da aparência: o olho diz branco, e um argumento bem montado diz negro. Ele não escolhe um dos lados e não declara que a cor da neve é impossível de conhecer.
Também não tenta descobrir qual dos dois está certo por votação, por autoridade ou por cansaço. Deixa os dois na mesa, com o peso que cada um tem, e observa o que acontece com a própria vontade de decidir.
O que acontece, segundo ele, é que ela para. A decisão não chega, e no lugar dela vem uma calma que ninguém prometeu.
Esse gesto de pôr uma razão contra outra de peso igual tem nome técnico, e a primeira seção o desmonta peça por peça.
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I A ideia do dia
Dois pratos no mesmo nível
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O termo é isostheneia, a isostenia (igualdade de força). Sexto a coloca no centro da definição de ceticismo que abre as Hipotiposes, e a definição é curta o bastante para caber numa linha de caderno.
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"O ceticismo é a capacidade de opor aparências e pensamentos de qualquer modo, pela qual, graças à igual força dos fatos e dos argumentos opostos, chegamos primeiro à suspensão do juízo e depois à tranquilidade."
Sexto Empírico, Hipotiposes Pirrônicas, livro I, c. 200 d.C.
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A palavra capacidade traduz dýnamis (poder, habilidade treinada). O ceticismo, para Sexto, é um ofício que se pratica, parecido com o do lutador ou do médico, e não uma tese que se defende.
A oposição pode ser feita de três maneiras. Aparência contra aparência: a mesma torre parece redonda de longe e quadrada de perto. Pensamento contra pensamento: a ordem do céu sugere uma providência, e o sofrimento dos justos sugere que ela não existe. Aparência contra pensamento, como no caso da neve.
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O cético não perde a discussão nem a vence: ele para de dar sentença.
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O passo seguinte recebe o nome de epoché (suspensão, o gesto de segurar a mão antes de assinar). Sexto a descreve como um estado da mente em que ela não afirma nem nega nada. A suspensão é o efeito da isostenia, e não uma regra que o cético se impõe.
o caminho descrito nas Hipotiposes
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Encontrar para cada argumento outro que o contrarie
Pesar os dois até nenhum pender
Suspender o juízo, sem afirmar nem negar
Receber a ataraxía (tranquilidade, ausência de perturbação)
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A tranquilidade não era o alvo direto. Sexto conta a história do pintor Apeles, que tentava pintar a espuma na boca de um cavalo e não conseguia. Irritado, jogou contra o quadro a esponja em que limpava os pincéis. A marca da esponja ficou idêntica à espuma.
O cético, diz Sexto, viveu a mesma surpresa. Queria a calma que viria de descobrir a verdade, não descobriu, suspendeu o juízo, e a calma veio assim mesmo, como uma sombra que acompanha o corpo.
Para falar sem afirmar, a escola criou fórmulas. A principal é ou mâllon (não mais isto que aquilo). Sexto avisa que até essa frase vale contra si mesma: ela se elimina com as demais, como um remédio purgativo que sai do corpo levando a doença.
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II Quem pensou
O médico que assinava pela escola
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Sexto Empírico viveu por volta de 200 d.C., escreveu em grego e exerceu a medicina. O segundo nome dele é o da escola médica que seguia, a dos empíricos, que tratavam o doente pelo que já tinha funcionado em casos parecidos e se recusavam a especular sobre causas ocultas no corpo.
Quase tudo o mais sobre ele se perdeu. Diógenes Laércio, biógrafo do século III d.C., o põe numa lista de mestres e alunos: discípulo de Heródoto de Tarso, também médico, e professor de um certo Saturnino. A cidade onde nasceu e a cidade onde ensinou ficaram sem registro, porque os livros dele não trazem nenhuma pista geográfica segura.
A escola que ele expõe tinha cinco séculos de história quando ele escreveu. Começa com Pirro de Élis, que viveu entre cerca de 360 e 270 a.C. e acompanhou o exército de Alexandre, o Grande, até a Índia. Lá, segundo os relatos antigos, conheceu os sábios nus que os gregos chamavam de gimnosofistas.
Pirro não escreveu nada. O que se conhece dele veio do discípulo Tímon de Fliunte, poeta satírico, e de histórias contadas depois: a calma dele num barco durante uma tempestade, apontando para um porco que comia tranquilo no convés.
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Sexto não inventou o ceticismo: montou o manual que salvou o ceticismo da perda.
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Depois de Pirro, a escola quase sumiu por dois séculos. Enesidemo de Cnossos a refundou no século I a.C. e organizou dez modos (tropos, esquemas prontos de argumento) para produzir a isostenia, como a diferença entre os animais, entre os homens e entre os sentidos.
Mais tarde, um filósofo chamado Agripa reduziu o arsenal a cinco modos. O mais famoso é o do regresso ao infinito: toda prova precisa de outra prova, e a corrente nunca encontra o primeiro elo.
Sexto recolheu esses esquemas, deu exemplos e os aplicou em série. Além das Hipotiposes, escreveu Contra os professores, onze livros que examinam gramática, retórica, geometria, aritmética, astrologia, música, lógica, física e ética.
A medicina e a filosofia dele andam pelo mesmo caminho. O médico empírico não afirma que a doença tem esta ou aquela causa invisível; registra que tal remédio aliviou tal sintoma e repete. O cético não afirma que o mundo é assim ou assado; registra como o mundo aparece e segue vivendo.
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