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A amizade que some junto com a vantagem
No livro VIII da Ética a Nicômaco, Aristóteles separa três amizades e aponta a que resiste quando o proveito que uniu os dois acaba.
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Duas cadeiras na mesma mesa de pedra
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"Amizade: relação de afeto, estima ou simpatia entre pessoas" (Houaiss). O livro VIII da Ética a Nicômaco, conjunto de anotações de aula que Aristóteles usou no Liceu de Atenas no século IV a.C., aceita que as três relações abaixo cabem nessa linha e observa que uma delas continua de pé depois que a estima deixa de render proveito. As outras duas terminam no dia em que o proveito some.
A ideia do dia é que quase toda amizade é um acordo com prazo embutido, e o prazo está escrito no motivo que a criou.
O grego chama tudo pelo mesmo nome. A palavra usada no texto é philia (amizade), e ela cobre uma extensão maior do que a palavra portuguesa: vale para sócio de comércio, para irmão, para hóspede de outra cidade, para marido e mulher, para o cidadão diante do conterrâneo que nunca viu.
O espaço que o assunto ocupa na obra indica o peso. A Ética a Nicômaco tem dez livros, e dois deles, o VIII e o IX, tratam só de amizade. Nenhum outro tema da obra ganha dois livros seguidos, nem a justiça, nem a coragem, nem o prazer. O texto sustenta que ninguém escolheria viver sem amigos mesmo tendo todos os outros bens.
O critério de separação é seco e cabe numa pergunta: o que exatamente cada um ama no outro. Se o que se ama é o proveito, o afeto dura enquanto durar o proveito. Se é a graça da companhia, dura enquanto durar a graça. Se é o caráter da pessoa, o afeto não tem onde se apoiar para acabar, porque caráter não muda de estação.
A lista de três parece simples até a hora de aplicar o critério na própria agenda. É ali que a classificação começa a doer, porque a maior parte das relações que chamamos de amizade se revela sustentada por um motivo que pode ser retirado.
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I A ideia do dia
Três contratos com o mesmo nome
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Aristóteles monta a classificação por um critério só: o objeto do afeto. Amamos alguém por ser útil, por ser agradável ou por ser bom. Três objetos, três relações, e o nome de amizade servindo para as três porque em todas há afeto recíproco, cada um deseja o bem do outro, e os dois sabem disso. A boa vontade escondida não conta como amizade em nenhuma das três.
Na amizade por utilidade, o afeto tem endereço no benefício. O fornecedor e o comprador, o vizinho que guarda a encomenda, o colega de setor que cobre o turno. Aristóteles nota que essa amizade aparece bastante entre pessoas mais velhas, que buscam o que é vantajoso, e entre viajantes de negócio que nem passam muito tempo juntos.
Na amizade por prazer, o afeto tem endereço na sensação agradável de estar junto. O texto aponta os jovens como caso típico, porque vivem pela emoção do momento e mudam de gosto rápido. Quem tinha graça aos dezoito pode não ter aos vinte e três, e a amizade evapora com a mesma velocidade com que apareceu.
As três amizades
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Por utilidade: ama-se o benefício que a pessoa traz, e acaba quando o benefício cessa
Por prazer: ama-se a graça da companhia, e acaba quando a graça cansa
Por virtude: ama-se o caráter da pessoa, e não há o que retirar
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Nas duas primeiras, o amigo é acidente: o que se ama é aquilo que ele entrega, não ele.
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"A amizade completa é a dos bons e semelhantes em virtude, pois esses desejam igualmente o bem um do outro enquanto são bons, e são bons por si mesmos."
Aristóteles, Ética a Nicômaco, livro VIII, escrita em Atenas no século IV a.C.
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A terceira recebe o nome de teleia philia (amizade completa, ou acabada). Ela exige que os dois sejam pessoas de bom caráter, que se queiram bem por causa do caráter, e que a relação seja recíproca e conhecida pelos dois lados. Como o caráter é estável, a amizade dura, e ela carrega de quebra a utilidade e o prazer que as outras duas oferecem separadas: um amigo bom também é agradável e também é útil.
O preço dela é o tempo. O texto diz que ninguém consegue conhecer o outro antes de comer junto a quantidade de sal que o costume exigia, imagem grega para uma convivência longa. Aristóteles também exige a partilha de dias, o syzēn (viver junto, no sentido de compartilhar conversa e ocupação), e afirma que nada define mais a amizade do que passar o tempo em companhia.
A consequência prática aparece na contagem. Como a amizade completa pede tempo e intimidade, ninguém tem muitas: o texto diz que é difícil agradar a muitos ao mesmo tempo dessa maneira e compara quem se diz amigo de todos a quem não é amigo de ninguém. Quem tem duas ou três relações assim já teria, pelo padrão do livro, uma vida rara.
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II Quem pensou
O filho de médico que atravessou três cidades e um exílio
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Aristóteles nasceu em Estagira, na península Calcídica, em 384 a.C. O pai, Nicômaco, era médico de Amintas III, rei da Macedônia, e o ofício da família explica o hábito de dissecar, medir e classificar que atravessa a obra inteira. Ficou órfão de pai e mãe ainda menino, e foi criado por Próxeno de Atarneu, marido de uma parente, que cuidou da educação dele.
Aos dezessete anos entrou na Academia de Platão, em Atenas, e ficou vinte anos ali, primeiro como aluno, depois como professor. Quando Platão morreu, em 347 a.C., a direção da escola passou a Espeusipo, sobrinho do fundador, e Aristóteles deixou a cidade. Foi para Assos, na costa da Ásia Menor, sob a proteção do governante Hérmias de Atarneu, com quem trabalhou e de quem se tornou parente por casamento, ao se casar com Pítias.
Passou depois a Lesbos, onde, com Teofrasto de Ereso, recolheu e descreveu peixes, moluscos e aves da lagoa de Pirra. Em 343 a.C. atendeu ao chamado de Filipe II da Macedônia e passou alguns anos como tutor do herdeiro, Alexandre, então com treze anos.
Em 335 a.C. voltou a Atenas e fundou escola própria junto a um bosque dedicado a Apolo Lício, de onde veio o nome Liceu. A casa tinha biblioteca, coleção de animais e um programa de pesquisa repartido entre os alunos, que chegaram a levantar as constituições de mais de uma centena de cidades gregas. O nome da obra ética vem do filho dele, também chamado Nicômaco, a quem a tradição atribui a organização ou a dedicatória do texto.
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A obra que chegou até aqui é material de aula: parágrafos comprimidos, repetições e cortes que só funcionam com alguém falando por cima.
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O que os copistas preservaram não são os livros que Aristóteles publicou. Ele escreveu diálogos elegantes para o público, elogiados na Antiguidade e hoje perdidos; o que sobreviveu foram as anotações internas do Liceu, editadas em Roma no século I a.C. por Andrônico de Rodes, que organizou o conjunto na ordem em que ainda se estuda.
Em 323 a.C., com a morte de Alexandre, a hostilidade contra os macedônios voltou a Atenas e ele foi acusado de impiedade, a mesma acusação usada contra Sócrates. Saiu da cidade e foi para Cálcis, na ilha de Eubeia. Morreu ali no ano seguinte, aos sessenta e dois anos, de uma doença do estômago descrita pelos antigos sem precisão.
O testamento, copiado por Diógenes Laércio, é o documento que mais aproxima o autor do assunto do livro VIII: ele deixa instruções para o casamento da filha, liberta pessoas escravizadas da casa, proíbe que se venda qualquer uma delas e pede que os ossos de Pítias, morta antes, sejam colocados junto aos dele. A frase que a tradição pôs na boca dele, "ó amigos, não há amigo", vem de relato tardio e a atribuição continua em disputa entre os estudiosos do texto.
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