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A alavanca que troca cinco por um
Philippa Foot desenhou em 1967 um bonde sem freio e duas linhas ocupadas, e uma variação de uma frase só inverteu a resposta de quase todo mundo.
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Uma alavanca de desvio ao lado do trilho
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Em 1967, uma revista de estudantes de Oxford publicou um artigo de filosofia moral sobre um problema técnico: quando é permitido causar um dano para evitar um dano maior. A autora precisava de um exemplo limpo, montou um em poucas linhas e seguiu com o argumento dela.
O exemplo saiu do artigo e nunca mais voltou. Ganhou nome próprio, virou item obrigatório em prova de ética, apareceu em série de televisão, rendeu um livro inteiro de divulgação em 2014 e entrou nas comissões que escrevem regra para carro que dirige sozinho.
A cena tem uma engenharia rara. Ela mantém a aritmética fixa, um de um lado e cinco do outro, e muda apenas o modo como a sua mão entra na história. Todo o resto fica igual: ninguém é culpado, ninguém é seu parente, ninguém escolheu estar ali.
Quando a aritmética não muda e a resposta muda, a diferença está em quem responde, não na conta. É por aí que o exemplo trabalha. Ele não pergunta quantos você salva, pergunta o que a sua consciência cobra pelo caminho até o resultado.
A maior parte das pessoas responde às duas versões em menos de dez segundos, com convicção, e trava na hora de justificar a diferença entre as duas respostas. A dificuldade não vem de falta de estudo em filosofia. Vem de um detalhe pior: a régua usada na primeira resposta não serve para a segunda.
A pergunta também não é peça de laboratório. Todo gestor que corta um orçamento, todo médico que organiza uma fila de triagem e todo engenheiro que define o limite de segurança de um sistema decide alguma versão da mesma coisa, com menos drama e mais planilha.
Vale reconstruir a cena como ela foi escrita, com o freio que falha e as duas linhas ocupadas, e depois acompanhar a variação de uma frase que derruba a resposta de quase todo mundo.
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I A ideia do dia
O desvio e o homem na passarela
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Um bonde desce a ladeira e o freio não responde. Na linha à frente, cinco trabalhadores de manutenção, de costas para a curva.
Existe um desvio poucos metros antes deles, e na outra linha há um trabalhador sozinho. Quem está no comando pode seguir reto e atingir os cinco, ou virar para o desvio e atingir o um. Não existe terceira saída, e o tempo acaba em segundos.
Na versão original, quem decide é o condutor do bonde. Quase todo mundo responde a mesma coisa: vire. Cinco é mais que um, e a conta parece encerrar a discussão ali.
A filósofa que montou a cena não estava atrás da resposta fácil. Ela pôs ao lado um segundo caso, com a mesma aritmética.
No segundo caso, um cirurgião tem cinco pacientes que precisam de órgãos diferentes e um sexto paciente saudável na sala ao lado. Um por cinco, a mesma proporção.
Aqui ninguém hesita na direção contrária. A ideia de abrir o paciente saudável causa repulsa imediata, e nenhuma calculadora convence. A pergunta do artigo nasce da diferença entre as duas reações.
Nove anos depois, a americana Judith Jarvis Thomson pegou a cena e tirou o condutor do comando. Na versão dela, você é um estranho parado ao lado do trilho, com a mão numa alavanca de desvio. Você não causou a falha, apenas passava por ali.
A resposta da maioria não muda: puxe a alavanca. Foi ela quem batizou o conjunto de casos com o nome pelo qual o problema ficou conhecido.
Então veio a variação que estragou tudo. Você está numa passarela sobre o trilho, ao lado de um homem grande e pesado. O único jeito de frear o bonde é empurrar o corpo dele para baixo.
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A conta é a mesma nos dois casos, um no lugar de cinco. A resposta da maioria vira do avesso quando muda apenas o caminho pelo qual o um entra na história.
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Um levantamento online com cerca de cinco mil pessoas de mais de cem países mediu a diferença. Perto de nove em cada dez aprovam puxar a alavanca. Perto de um em cada dez aprova o empurrão na passarela.
A explicação clássica vem da doutrina do duplo efeito, formulada na tradição medieval. Existe diferença moral entre um dano que você pretende e um dano que você prevê sem pretender.
Na alavanca, o trabalhador solitário é efeito colateral do desvio. Se ele pulasse a tempo, o plano seguiria funcionando. Na passarela, o corpo do homem é o freio: se ele escapar, o plano falha.
A distinção é elegante e resiste mal a certos testes. Basta desenhar o desvio em laço, voltando ao trilho principal adiante, para o corpo do um virar de novo peça do mecanismo.
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II Quem pensou
O filme de 1945 que decidiu a carreira
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Philippa Foot construiu o exemplo mais famoso da filosofia moral para defender uma distinção técnica, e passou o resto da vida vendo o exemplo viajar sozinho, longe do argumento que ele deveria servir.
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Ela nasceu em outubro de 1920, em Owston Ferry, no interior da Inglaterra, numa casa onde ninguém esperava nada intelectual dela. A mãe, Esther Cleveland, tinha nascido dentro da Casa Branca, filha do presidente americano Grover Cleveland.
A educação veio de governantas, e o veredito da família era que a menina não tinha cabeça para estudo. Ela entrou em Somerville College, em Oxford, em 1939, e saiu em 1942 com nota máxima.
A guerra tinha esvaziado Oxford de homens, e o espaço abriu para uma geração de mulheres que mudaria a filosofia moral inglesa: Elizabeth Anscombe, Iris Murdoch, Mary Midgley e ela.
Durante o conflito, trabalhou como economista em Londres. Em 1945 assistiu ao material filmado na abertura dos campos de concentração, e a sessão decidiu o que ela ia fazer da vida acadêmica.
A filosofia dominante em Oxford dizia que julgamento moral é expressão de atitude, não afirmação sobre o mundo. Pela leitura da moda, dizer que o nazismo foi errado equivalia a dizer que você não gosta de nazismo.
Ela achou a saída intolerável e passou décadas construindo a alternativa: existe fato moral, ancorado no tipo de vida que um ser humano precisa levar, como existe fato sobre a saúde de uma planta.
Voltou a Somerville em 1947 como professora e ficou. O artigo de 1967 tratava do aborto e da doutrina do duplo efeito, e a cena do bonde entrou ali como ferramenta de um argumento sobre intenção.
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"O condutor de um bonde desgovernado, que só pode desviar de uma linha estreita para outra; cinco homens trabalham numa linha e um homem na outra; quem estiver na linha em que ele entrar não escapa."
Philippa Foot, O Problema do Aborto e a Doutrina do Duplo Efeito, 1967.
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O texto reuniu em poucas páginas o juiz pressionado por uma multidão a condenar um inocente, o cirurgião com cinco pacientes na fila e o condutor do bonde. Apenas um dos três pegou o público.
Em 1978 ela juntou os ensaios num livro. Em 2001, aos 81 anos, publicou o trabalho que considerava a obra da vida dela: bondade humana se avalia como se avalia o funcionamento de um organismo vivo.
Ela via a fama do exemplo com desconfiança. O ponto do artigo era uma distinção fina sobre intenção, e o que o mundo levou embora foi a cena do bonde, o placar de cinco contra um e uma indústria acadêmica com centenas de artigos.
Philippa Foot se despediu em Oxford em 3 de outubro de 2010, no dia em que completava 90 anos.
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